“O decrescimento é uma arte de viver. Uma arte de viver bem, em acordo com o mundo. O objetor do crescimento é também um artista. Alguém para quem o gozo estético é uma parte importante da sua alegria de viver.“
A reflexão é do economista e filósofo francês Serge Latouche, conhecido defensor do "decrescimento sustentável", em artigo para o jornal L'Unità, 25-02-2011. O trecho faz parte de seu livro Come si esce dalla società dei consumi. Corsi e percorsi della decrescita, Ed. Bollati Boringhieri, 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A via do decrescimento é uma abertura, um convite a encontrar um outro mundo possível. Esse outro mundo nós o chamamos de sociedade do decrescimento.
O convite é a viver aqui e agora, e não em um hipotético futuro que, embora desejável, talvez não veremos nunca. Esse outro mundo, portanto, está também naquele em que vivemos hoje. Está também em nós. O caminho é também um olhar, um outro olhar sobre o nosso mundo, um outro olhar sobre nós. (…)
A "common decense"
A via do decrescimento é, portanto, acima de tudo, uma escolha. (…) É, em todo o caso, um caminho de saída da enorme decadência gerada pela sociedade do crescimento. Um caminho de saída para recuperar a estima de si mesmo. É o caminho para reconstruir uma sociedade decente. Uma sociedade decente, diz o ensaio, é uma sociedade que não humilha os seus membros. É uma sociedade que não produz lixo.
A via do decrescimento é também a "common decense" de George Orwell. A decência comum significa ter controle, estar atento, ser capaz de ter vergonha por aquilo que é feito ao mundo e às pessoas. "Ser desenvergonhado – diz Bernard Stiegler – significa ter se tornado incapaz de ter vergonha". A sociedade do crescimento é um mundo desenvergonhado, um mundo em que reina o desprezo. E o desejo de fugir do desprezo é uma aspiração universal (talvez a única verdadeiramente universal) que se realiza apenas nas sociedades decentes. A ausência de controle, a falta de atenção equivalem à ausência da decência comum definida por Orwell. Um mundo decente talvez não é mundo de abundância material, mas é um mundo sem miseráveis e sem sujeira. (…)
Quando dizemos que o decrescimento é um projeto político, entendemos que é também uma ética, porque, para nós, como para Aristóteles, a política não é concebível sem uma ética, e vice-versa, mesmo que seja oportuno não confundir os dois planos. Uma política que fosse apenas uma ética seria impotente ou terrorista, mas uma política sem ética (como a que vivemos principalmente a partir da reviravolta dos anos 90, do grande salto para trás neoliberal) vê o triunfo da banalidade do mal. (…)
A via do decrescimento é também o da emancipação e da conquista da autonomia. É a busca pela liberdade verdadeira e não da sua caricatura, a do hedonismo desenfreado e sem regras, proposta pela publicidade e pelo marketing e promovida pelo novo espírito do capitalismo, falsamente alegre e de fato mortífero. (...)
A via do decrescimento é uma saída de emergência do beco sem saída da imundialização [immondializzazione, jogo de palavras entre imundo e mundialização]. O caminho do crescimento é um exílio. É a travessia do deserto rumo à terra prometida, mas é também um oásis no deserto do crescimento. "A revolução – adverte Jérôme Baschet – não tem sentido se ela não é concebida, ao mesmo tempo, como uma festa, se é privada daquelas ocasiões tão importantes como um baile ou uma explosão de risos... É vão querer combater a alienação com formas alienadas... É preciso admitir a impossibilidade de conduzir uma verdadeira luta pela humanidade sem começar a perceber, no próprio processo dessa luta, a verdade da humanidade à qual se aspira, sem reconhecer o direito ao prazer e a necessidade de uma poesia que nada mais é do que o nome dado a uma existência verdadeiramente digna do homem".(...)
O decrescimento é uma arte de viver. Uma arte de viver bem, em acordo com o mundo. O objetor do crescimento é também um artista. Alguém para quem o gozo estético é uma parte importante da sua alegria de viver. (…) Fazer da sua própria vida uma obra de arte não é o objetivo, mas um dos resultados.
A via do decrescimento é uma ascese. Limitando-se ao aspecto curativo e à luta contra a toxicodependência do consumismo, pode-se retomar a ideia de Ivan Illich do "tecnojejum". O decrescimento é um exercício de emancipação das próteses técnicas, uma libertação da servidão voluntária e uma alienação à autonomia.
A via do decrescimento é uma conversão de si mesmo e dos outros. A conversão exigida para realizar a transformação social necessária e desejável pressupõe que se crie uma atitude de acolhida e de abertura a essa mudança. Essa educação é, ao mesmo tempo e indissoluvelmente, saber e ética, resistência e dissidência. (…)
A via do decrescimento é reconquista da realidade e da terra que é o seu princípio. Trata-se de habitar a terra como um território, um lugar de cumplicidade e de reciprocidade. De reencontrar a nossa intimidade com uma dimensão originária. "Hoje, uma linha de horizonte técnica – escreve de modo inspirado Xavier Bonnaud – separa o ser humano da fauna e da flora. Esses elementos que o ser humano tem afastado, enfraquecido e canalizado não produzem mais nele aquelas relações afetivas profundas que derivavam de um contato direto". (…)
A via do decrescimento é a da crítica livre. É a da autolimitação e não do desencadeamento sem freios das paixões tristes. O decrescimento quer retomar o programa de emancipação política da modernidade, enfrentando as dificuldades que a sua realização comporta. A experiência autenticamente democrática instaura uma experiência de transcendência do homem no homem que permite sair das aporias do igualitarismo. Como diz o filósofo belga Robert Legros: "Reconhecer uma limitação dos poderes do homem que não seja uma autolimitação significa claramente admitir uma heteronomia no centro da autonomia. Interpretar essa limitação como uma norma inscrita na humanidade do homem, e não como uma norma de origem religiosa, significa tentar compreender o sentido de uma heteronomia propriamente democrática".
Se o decrescimento e o projeto de construção de uma sociedade autônoma realizam o sonho de emancipação dos Iluministas e da modernidade, não fazem isso por meio de uma desvinculação da ligação com a natureza e do enraizamento na história, mas, ao contrário, reconhecendo a dupla herança da nossa naturalidade e da nossa historicidade. É preciso lutar contra a ilimitação do indivíduo e da sua relação com a natureza que pretendemos criar.
A via do decrescimento é essa luta. A via do decrescimento é uma emancipação da religião do crescimento. Requer, portanto, necessariamente, também um "descrer". É preciso abolir a fé na economia, renunciar ao ritual do consumo e ao culto do dinheiro. Para os teólogos Alex Zanotelli, Pe. Achille Rossi, Pe. Luigi Ciotti e Raimon Panikkar, assim como para Ivan Illich ou Jacques Ellul, a sociedade do crescimento apoia-se sobre uma estrutura de pecado.
Contrariamente à fórmula desventurada da encíclica Populorium progressio, o desenvolvimento não é o novo nome da paz, mas sim o da guerra, guerra pelo petróleo ou pelos recursos naturais em via de exaurimento. Na sociedade do crescimento, não haverá nunca mais nem paz nem justiça. Ao contrário, uma sociedade do decrescimento trará novamente ao seu próprio centro a paz e a justiça.
Não queremos cair na ilusão de uma mítica sociedade perfeita, em que o mal seria erradicado definitivamente, mas sim inventar uma sociedade dinâmica, que enfrenta as suas inevitáveis imperfeições e contradições, dando-se como horizonte o bem comum, ao invés da avidez desenfreada. A via do decrescimento não é uma religião nem uma antirreligião: é uma sabedoria.
Para os objetores do crescimento, a busca dessa via é um dever, mas não é um imperativo categórico de tipo kantiano, embora assumamos o imperativo kantiano assim como reformulado por Hans Jonas: "Age de modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a terra".
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sexta-feira, 4 de março de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Decrescimento sereno: um conceito altamente polêmico
Por: Beja Santos (Fonte: http://va.vidasalternativas.eu/ )
Serge Latouche é o grande paladino do modelo de decrescimento sereno e sustentável. As suas teses acabam de aparecer entre nós e seguramente que vão alimentar discussões, sobretudo nos meios ligados à ecologia, aos modelos econômicos alternativos e à alterglobalização: “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno”, por Serge Latouche, Edições 70, 2011. Outrora, falava-se em reduzir, reutilizar e reciclar. Na sua proposta para o decrescimento sereno convivial e sustentável, Latouche propõe: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar e reciclar. Vivemos no mundo em que os danos ambientais estão largamente denunciados mas como temos a nossa refeição garantida todos os dias, tudo pretendemos ignorar. Há décadas que se fala nos riscos a prazo de um conjunto de substâncias como o pesticida, muito pouco se fez; quase todos os dias emanam relatórios perturbadores de entidades respeitáveis, continuamos vergados ao crescimento pelo crescimento, parece que há uma incapacidade generalizada para pôr um travão a este bólide sem condutor, sem marcha atrás e sem travões.
Fazendo fé à argumentação de Latouche, vamos passar em revista os dados fundamentais deste projeto de sociedade de decrescimento que o autor apresenta como a única alternativa que se pode pôr a uma previsível catástrofe ecológica e humana. Primeiro, a despeito de muita indiferença dos meios políticos dominantes, há uma gradual atenção ao decrescimento que já aparece associado à rejeição do crescimento ilimitado o tal que se pauta pelo culto irracional e quase idólatra do crescimento pelo crescimento. Retomando enunciados e olhares que vêm da contestação ambiental e de muitos intelectuais alternativos, o projeto de decrescimento orienta-se para uma sociedade em que se viverá melhor, trabalhando e consumindo menos. O conceito de desenvolvimento sustentável fundamenta-se em ambigüidades e equívocos, tudo leva a crer que os economistas que no fundo suspiram só pelo crescimento pelo crescimento até gostem do conceito, tão neutro que ele é. A economia neoclássica condescende com a necessidade de apregoar a sustentabilidade, mas no fundo mantém-se indiferente às leis fundamentais da biologia, da química e da física. Esses economistas negam a bioeconomia, ou seja, rejeitam pensar a economia no interior da bioesfera. Segundo, a sociedade em que vivemos é a da acumulação ilimitada, nela o importante é criar desejos ao consumidor, dar-lhe crédito para ele nunca deixar de consumir e programar os produtos para que se renove regularmente a necessidade de sua substituição. Chegamos assim a uma pegada ecológica insustentável, vivemos do rendimento e do patrimônio. Os excessos cometidos têm sido tão grandes que não há ninguém que não se interrogue se não estamos a preparar o nosso desaparecimento: uma guerra atômica, através de pandemias, esgotando os recursos naturais e destruindo a biodiversidade, mediante alterações climáticas que tornem a existência inviável.
As discussões sobre o modelo econômico alternativo prosseguem, mas parece que ninguém quer pôr em causa a lógica de desmesura do sistema econômico. Terceiro, para entender o decrescimento é necessário compreender o ciclo dos oito “R” que Latouche preconiza: reavaliar (os valores do passado são incompatíveis com os desafios do presente, precisamos de cooperação, vida social, autonomia como os valores indispensáveis para substituir a competição desenfreada, o consumo ilimitado e a eficiência produtivista); reconceptualizar (porque esta mudança de valores pressupõe uma outra maneira de apreender a realidade); reestruturar (ou seja, adaptar o aparelho de produção a essa mudança de valores o que significa que se terá de pôr em causa e muito provavelmente abandonar o capitalismo); redistribuir (a reestruturação das relações sociais acarretará uma distribuição); relocalizar (produzir localmente uma parte fundamental do que é indispensável para satisfazer necessidades da população); reduzir (para diminuir o impacto na bioesfera das nossas maneiras de produzir e consumir); reutilizar/reciclar (aqui parece estar toda a gente de acordo, é um conceito pacífico). Destes oito “R” três têm um papel estratégico, como escreve Latouche: a reavaliação, porque ela preside a toda a mudança, a redução porque condensa todos os imperativos práticos do decrescimento e a relocalização porque diz respeito à vida quotidiana e ao emprego de milhões de pessoas. Relocalizar será inventar a democracia ecológica local com as suas relações transversais, virtuosas e solidárias, com um elevado grau de auto-suficiência alimentar, mas também econômica e financeira.
O que nos remete para um valor profundo da regionalização, ela própria com uma decrescente pegada ecológica graças à produção e ao consumo sustentáveis e uma elevada riqueza em iniciativas locais decrescentes. Quarto, reduzir será contrariar a irracionalidade da globalização, onde camarões dinamarqueses são descascados em Marrocos e regressam à Dinamarca, lagostins escoceses são expatriados para a Tailândia para ser descascados à mão e regressar à escócia para ser cozidos. Esta globalização irracional assenta no uso indiscriminado transporte e na indiferença pela velocidade. Este decrescimento, como é óbvio, carece de um programa político, não pode ser implementado sem uma grande adesão das populações: para reduzir a pegada ecológica; para se aplicar eco taxas; para se fixarem atividades econômicas e pessoas em meio local, para encorajar uma produção o mais local, sazonal, natural e tradicional que for possível; para transformar os ganhos de produtividade em redução do tempo de trabalho e em criação de empregos; para reduzir os desperdícios de energia; e para impulsionar os chamados bens relacionais, como a amizade e o conhecimento. Estamos pois no centro das grandes controvérsias: nesta acepção do decrescimento o que seria o pleno emprego, que modelo capitalista se poderia institucionalizar, isto logo à cabeça. Está aberta a grande discussão.
Em jeito de conclusão, é bom que se diga que os partidários do crescimento são rotulados de todas as enormidades: são contra o progresso, contra o turismo de massas, a inovação e competitividade, por exemplo. Latouche responde que a realização de uma sociedade de crescimento passa necessariamente por um reencantamento do mundo, o que ninguém sabe muito bem o que quer dizer. Querer travar a banalização das coisas requer artistas e entusiastas pelo decrescimento. Resta saber qual a adesão que este modelo alternativo encontrará qual o entusiasmo a este modo de vida gradual e serenamente decrescente. As grandes discussões vão agora começar.
Serge Latouche é o grande paladino do modelo de decrescimento sereno e sustentável. As suas teses acabam de aparecer entre nós e seguramente que vão alimentar discussões, sobretudo nos meios ligados à ecologia, aos modelos econômicos alternativos e à alterglobalização: “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno”, por Serge Latouche, Edições 70, 2011. Outrora, falava-se em reduzir, reutilizar e reciclar. Na sua proposta para o decrescimento sereno convivial e sustentável, Latouche propõe: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar e reciclar. Vivemos no mundo em que os danos ambientais estão largamente denunciados mas como temos a nossa refeição garantida todos os dias, tudo pretendemos ignorar. Há décadas que se fala nos riscos a prazo de um conjunto de substâncias como o pesticida, muito pouco se fez; quase todos os dias emanam relatórios perturbadores de entidades respeitáveis, continuamos vergados ao crescimento pelo crescimento, parece que há uma incapacidade generalizada para pôr um travão a este bólide sem condutor, sem marcha atrás e sem travões.
Fazendo fé à argumentação de Latouche, vamos passar em revista os dados fundamentais deste projeto de sociedade de decrescimento que o autor apresenta como a única alternativa que se pode pôr a uma previsível catástrofe ecológica e humana. Primeiro, a despeito de muita indiferença dos meios políticos dominantes, há uma gradual atenção ao decrescimento que já aparece associado à rejeição do crescimento ilimitado o tal que se pauta pelo culto irracional e quase idólatra do crescimento pelo crescimento. Retomando enunciados e olhares que vêm da contestação ambiental e de muitos intelectuais alternativos, o projeto de decrescimento orienta-se para uma sociedade em que se viverá melhor, trabalhando e consumindo menos. O conceito de desenvolvimento sustentável fundamenta-se em ambigüidades e equívocos, tudo leva a crer que os economistas que no fundo suspiram só pelo crescimento pelo crescimento até gostem do conceito, tão neutro que ele é. A economia neoclássica condescende com a necessidade de apregoar a sustentabilidade, mas no fundo mantém-se indiferente às leis fundamentais da biologia, da química e da física. Esses economistas negam a bioeconomia, ou seja, rejeitam pensar a economia no interior da bioesfera. Segundo, a sociedade em que vivemos é a da acumulação ilimitada, nela o importante é criar desejos ao consumidor, dar-lhe crédito para ele nunca deixar de consumir e programar os produtos para que se renove regularmente a necessidade de sua substituição. Chegamos assim a uma pegada ecológica insustentável, vivemos do rendimento e do patrimônio. Os excessos cometidos têm sido tão grandes que não há ninguém que não se interrogue se não estamos a preparar o nosso desaparecimento: uma guerra atômica, através de pandemias, esgotando os recursos naturais e destruindo a biodiversidade, mediante alterações climáticas que tornem a existência inviável.
As discussões sobre o modelo econômico alternativo prosseguem, mas parece que ninguém quer pôr em causa a lógica de desmesura do sistema econômico. Terceiro, para entender o decrescimento é necessário compreender o ciclo dos oito “R” que Latouche preconiza: reavaliar (os valores do passado são incompatíveis com os desafios do presente, precisamos de cooperação, vida social, autonomia como os valores indispensáveis para substituir a competição desenfreada, o consumo ilimitado e a eficiência produtivista); reconceptualizar (porque esta mudança de valores pressupõe uma outra maneira de apreender a realidade); reestruturar (ou seja, adaptar o aparelho de produção a essa mudança de valores o que significa que se terá de pôr em causa e muito provavelmente abandonar o capitalismo); redistribuir (a reestruturação das relações sociais acarretará uma distribuição); relocalizar (produzir localmente uma parte fundamental do que é indispensável para satisfazer necessidades da população); reduzir (para diminuir o impacto na bioesfera das nossas maneiras de produzir e consumir); reutilizar/reciclar (aqui parece estar toda a gente de acordo, é um conceito pacífico). Destes oito “R” três têm um papel estratégico, como escreve Latouche: a reavaliação, porque ela preside a toda a mudança, a redução porque condensa todos os imperativos práticos do decrescimento e a relocalização porque diz respeito à vida quotidiana e ao emprego de milhões de pessoas. Relocalizar será inventar a democracia ecológica local com as suas relações transversais, virtuosas e solidárias, com um elevado grau de auto-suficiência alimentar, mas também econômica e financeira.
O que nos remete para um valor profundo da regionalização, ela própria com uma decrescente pegada ecológica graças à produção e ao consumo sustentáveis e uma elevada riqueza em iniciativas locais decrescentes. Quarto, reduzir será contrariar a irracionalidade da globalização, onde camarões dinamarqueses são descascados em Marrocos e regressam à Dinamarca, lagostins escoceses são expatriados para a Tailândia para ser descascados à mão e regressar à escócia para ser cozidos. Esta globalização irracional assenta no uso indiscriminado transporte e na indiferença pela velocidade. Este decrescimento, como é óbvio, carece de um programa político, não pode ser implementado sem uma grande adesão das populações: para reduzir a pegada ecológica; para se aplicar eco taxas; para se fixarem atividades econômicas e pessoas em meio local, para encorajar uma produção o mais local, sazonal, natural e tradicional que for possível; para transformar os ganhos de produtividade em redução do tempo de trabalho e em criação de empregos; para reduzir os desperdícios de energia; e para impulsionar os chamados bens relacionais, como a amizade e o conhecimento. Estamos pois no centro das grandes controvérsias: nesta acepção do decrescimento o que seria o pleno emprego, que modelo capitalista se poderia institucionalizar, isto logo à cabeça. Está aberta a grande discussão.
Em jeito de conclusão, é bom que se diga que os partidários do crescimento são rotulados de todas as enormidades: são contra o progresso, contra o turismo de massas, a inovação e competitividade, por exemplo. Latouche responde que a realização de uma sociedade de crescimento passa necessariamente por um reencantamento do mundo, o que ninguém sabe muito bem o que quer dizer. Querer travar a banalização das coisas requer artistas e entusiastas pelo decrescimento. Resta saber qual a adesão que este modelo alternativo encontrará qual o entusiasmo a este modo de vida gradual e serenamente decrescente. As grandes discussões vão agora começar.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
A proposta do decrescimento não passa apenas pelo campo econômico. Passa também por todos os outros setores da vida humana. Vamos falar um pouco sobre a necessidade urgente de decrescimento populacional no planeta terra e sobre a conscientização das pessoas a respeito da importância desse decrescimento.
A quantidade de habitantes no mundo manteve-se quase a mesma desde épocas muito remotas como o ano 10000 A.C. No ano 1 da era cristã a população mundial tinha cerca de 250 milhões de habitantes e passou para 500 milhões, em 1500. Isso significa que a quantidade de pessoas sobre o planeta dobrou em 1500 anos.
Por volta do ano 1800, a população mundial atingiu um bilhão de pessoas, ou seja: a quantidade de pessoas sobre o planeta dobrou em cerca de 300 anos.
Mais ou menos em 1922, a população mundial atingiu dois bilhões de pessoas, ou seja: a quantidade de pessoas dobrou novamente em cerca de 120 anos.
O ímpeto de crescimento desordenado da humanidade não parou de crescer e a população mundial chegou a 4 bilhões de habitantes em 1975 (dobrou em apenas 53 anos). Nos 13 anos seguintes houve um acréscimo de mais 1 bilhão de habitantes e, em 1999 (11 anos depois) a população do mundo chegou a 6 bilhões. Seguindo esse ritmo a população mundial deve atingir 7 bilhões de habitantes em 2012, 8 bilhões em 2025 e deverá alcançar 9 bilhões em 2050.
O crescimento vertiginoso da população após o ano de 1800 D.C. ficou conhecido como “curva L” do crescimento populacional como pode ser observado no gráfico abaixo.
As estimativas de crescimento populacional para os próximos anos e décadas também apontam um futuro desordenado e caótico para todos nós.
Crescimento da população mundial
População Ano Tempo para o próximo bilhão (em anos)
1 bilhão 1802 126
2 bilhões 1928 33
3 bilhões 1961 13
4 bilhões 1974 13
5 bilhões 1987 12
6 bilhões 1999 11
7 bilhões* 2010 16
8 bilhões* 2026 24
9 bilhões* 2050 20
10 bilhões* 2070 26
11 bilhões* 2096 não calculado
(*estimativa)
As conseqüências negativas dessa massa populacional gigante no planeta consumindo água, matéria e alimento não são muito difíceis de serem compreendidas. Administrar um número maior de elementos é muito mais difícil do que administrar um número menor e controlado de pessoas.
Muitos economistas desdenham de Malthus gabando-se que os avanços tecnológicos suplantaram os problemas que teríamos com a obtenção de comida para essa grande quantidade de pessoas sobre o planeta. Só não percebem que isso foi obtido à um custo social e ambiental muito alto.
O planeta não suportará essa quantidade de pessoas por muito tempo e isso está mais o que demonstrado nos sinais que podemos perceber da natureza. Uma completa e profunda conscientização das pessoas e rigorosas ações políticas de todos os países devem ser tomadas para evitar que o pior aconteça.
Infelizmente, o ser humano tem sido imediatista e, questões mais demoradas e abrangentes que não se relacionam diretamente a ele e a sua época não são consideradas com responsabilidade.
Somente a mudança para uma sociedade de Decrescimento poderá garantir o futuro da raça humana e do planeta. Mudança essa que deve ser profunda e ampla. Uma mudança que passe por questões sociais, econômicas, culturais e também pela questão do tamanho da população mundial e o que chamamos de “pegada ecológica”.
Em nossa época e futuramente reduzir significará continuar existindo.
A quantidade de habitantes no mundo manteve-se quase a mesma desde épocas muito remotas como o ano 10000 A.C. No ano 1 da era cristã a população mundial tinha cerca de 250 milhões de habitantes e passou para 500 milhões, em 1500. Isso significa que a quantidade de pessoas sobre o planeta dobrou em 1500 anos.
Por volta do ano 1800, a população mundial atingiu um bilhão de pessoas, ou seja: a quantidade de pessoas sobre o planeta dobrou em cerca de 300 anos.
Mais ou menos em 1922, a população mundial atingiu dois bilhões de pessoas, ou seja: a quantidade de pessoas dobrou novamente em cerca de 120 anos.
O ímpeto de crescimento desordenado da humanidade não parou de crescer e a população mundial chegou a 4 bilhões de habitantes em 1975 (dobrou em apenas 53 anos). Nos 13 anos seguintes houve um acréscimo de mais 1 bilhão de habitantes e, em 1999 (11 anos depois) a população do mundo chegou a 6 bilhões. Seguindo esse ritmo a população mundial deve atingir 7 bilhões de habitantes em 2012, 8 bilhões em 2025 e deverá alcançar 9 bilhões em 2050.
O crescimento vertiginoso da população após o ano de 1800 D.C. ficou conhecido como “curva L” do crescimento populacional como pode ser observado no gráfico abaixo.
As estimativas de crescimento populacional para os próximos anos e décadas também apontam um futuro desordenado e caótico para todos nós.
Crescimento da população mundial
População Ano Tempo para o próximo bilhão (em anos)
1 bilhão 1802 126
2 bilhões 1928 33
3 bilhões 1961 13
4 bilhões 1974 13
5 bilhões 1987 12
6 bilhões 1999 11
7 bilhões* 2010 16
8 bilhões* 2026 24
9 bilhões* 2050 20
10 bilhões* 2070 26
11 bilhões* 2096 não calculado
(*estimativa)
As conseqüências negativas dessa massa populacional gigante no planeta consumindo água, matéria e alimento não são muito difíceis de serem compreendidas. Administrar um número maior de elementos é muito mais difícil do que administrar um número menor e controlado de pessoas.
Muitos economistas desdenham de Malthus gabando-se que os avanços tecnológicos suplantaram os problemas que teríamos com a obtenção de comida para essa grande quantidade de pessoas sobre o planeta. Só não percebem que isso foi obtido à um custo social e ambiental muito alto.
O planeta não suportará essa quantidade de pessoas por muito tempo e isso está mais o que demonstrado nos sinais que podemos perceber da natureza. Uma completa e profunda conscientização das pessoas e rigorosas ações políticas de todos os países devem ser tomadas para evitar que o pior aconteça.
Infelizmente, o ser humano tem sido imediatista e, questões mais demoradas e abrangentes que não se relacionam diretamente a ele e a sua época não são consideradas com responsabilidade.
Somente a mudança para uma sociedade de Decrescimento poderá garantir o futuro da raça humana e do planeta. Mudança essa que deve ser profunda e ampla. Uma mudança que passe por questões sociais, econômicas, culturais e também pela questão do tamanho da população mundial e o que chamamos de “pegada ecológica”.
Em nossa época e futuramente reduzir significará continuar existindo.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
(Dica de leitura) Livro: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno
Título: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno
Senador Cristovam Buarque defende o Decrescimento em Brasília
Crescer menos em função da felicidade
Ao mesmo tempo em que são comemorados os resultados positivos da economia brasileira, surge um debate acerca dos limites do crescimento do Brasil. Ganham cada vez mais espaço as ideias de que é preciso muito mais que incrementar o PIB.
O senador Cristovam Buarque abriu o debate sobre o “decrescimento feliz”, em discurso, dia 25 de outubro, quando criticou a falta de debate sobre o crescimento econômico do Brasil. É a ideia de que é possível, “e até necessário”, crescer menos a economia em função da felicidade das pessoas.
O senador Cristovam Buarque abriu o debate sobre o “decrescimento feliz”, em discurso, dia 25 de outubro, quando criticou a falta de debate sobre o crescimento econômico do Brasil. É a ideia de que é possível, “e até necessário”, crescer menos a economia em função da felicidade das pessoas.
“O problema do endividamento está no crescimento. O problema ambiental está no crescimento. O problema dos gastos públicos está no crescimento. Sem o crescimento, isso não ocorreria. Mas ninguém debate o crescimento”, avalia.
No pronunciamento, Buarque se apropria de questionamentos que estão sendo aprofundados na Europa, como reflexão da crise econômica que atinge alguns países. “Essa idéia que toma conta da Europa aos poucos, nos meios intelectuais, de decrescimento como objetivo, decrescimento com ampliação do bem-estar, decrescimento da produção, aumentando a satisfação das pessoas, aumentando a felicidade”, disse o senador na tribuna.
Conforme Buarque, é necessário contestar, ao menos em âmbito do debate, qual o crescimento o País precisa e não quanto ou como crescer. Para ele, a Europa é um exemplo a não ser seguido pelo Brasil. “Não esqueçamos que a Europa é o sonho da gente e é um sonho que não vale a pena repetir, porque é um sonho que está em chamas, neste momento, na Inglaterra, em Portugal, na França, na Grécia. E não é uma questão do capitalismo, porque a União Soviética também viveu até mais essa crise do que os países do Ocidente capitalista”, comentou.
O mestre em economia e pesquisador em desenvolvimento econômico, Eldair Melo, discorda do senador. Para ele, a Europa passa por uma crise de Welfare State (Estado do Bem-estar Social), o que ainda não existe no Brasil.
“Tal crise está proporcionando novamente a aquele continente uma nova oportunidade de desenvolvimento. As necessidades deles são outras. Eles querem garantir seu novo bem-estar social. No Brasil, as políticas criadas pelos governos, como o Bolsa Família, atuam como programas assistencialistas. Entenda que ainda hoje morrem pessoas nos corredores de hospitais públicos por falta de atendimento ou negligencia destes”, explica.
Não resolve o problema
O senador Buarque propõe, na verdade, uma mudança na mentalidade do crescimento e desenvolvimento. Para ele, somente reduzir as desigualdades não resolve o problema maior. “Não é a distribuição de renda que vai mudar o modelo, apenas vai distribuir esse modelo mais, e aí vai trazer outros problemas, como meio ambiente, como endividamento crescente”, critica. (Andreh Jonathas)
Bem-estar social
“Ainda não temos o Estado do bem-estar social. O ‘decrescimento feliz’ somente acontece com a existência disso. Primeiro, devemos desenvolver nossas necessidades e atingirmos um grau de desenvolvimento compatível” Eldair Melo, mestre em economia e pesquisador sobre desenvolvimento econômico
FONTE: Jornal "O Povo" online.
Gordura e Crescimento (Por Cristovam Buarque)
Durante séculos, acreditamos que as cidades ficavam melhores à medida que aumentavam. Faz pouco tempo, percebemos a necessidade de reduzir as cidades, para viver melhor fora das megalópoles. Já é possível ser mais feliz em cidades menores. Também durante séculos, acreditamos que as mulheres e os homens gordos eram mais saudáveis e mais ricos, carregando no corpo as provas da riqueza, as lembranças do prazer de comer e o fim da angústia da fome. Hoje, pelo contrário, o símbolo da riqueza e da beleza é a esbeltez. Nas sociedades modernas, são os pobres que engordam; os ricos gastam fortunas para emagrecer.
Gordura e superpopulação deixaram de ser sinais de riqueza inteligente, tanto para cidades quanto para pessoas. Mas as pessoas ainda resistem em perceber que a gordura que as rodeia, na forma de bens, consumidos ou de patrimônio, não é mais sinal de riqueza inteligente.
Porque essa riqueza já não cabe no mundo. As cidades vivem com suas aortas entupidas de automóveis, a atmosfera envenenada por dióxido de carbono. O organismo social padece das doenças que convenceram as pessoas a reduzirem suas cinturas. Também porque a segunda lei da termodinâmica deixa claro que nada pode crescer infinitamente em um mundo finito, com recursos naturais esgotáveis.
Depois de dois séculos de civilização industrial, principalmente na segunda metade do século XX, e muito mais com a globalização das últimas décadas, o PIB se transformou no símbolo do avanço civilizatório. Não importa se a compra vai endividar, comprometer o consumo de coisas mais essenciais à família, tirar as crianças de uma boa escola.
Não importa também se as horas perdidas no trânsito aumentam, ou se os engarrafamentos consomem tempo de vida ou provocam angústias e perdas. Como o consumo de combustível eleva o PIB, o engarrafamento passa a impressão de que a sociedade está mais rica, apesar da diminuição da felicidade geral.
Na medida em que percebemos o "desvalor" dos bens que engordam as cidades e as casas, tomamos consciência da possibilidade e da conveniência de aumentar o bem-estar graças ao decrescimento da produção de bens materiais e privados, com aumento na oferta de bens e serviços públicos e culturais. Diante da crise ecológica previsível e das insatisfações sociais já sentidas, surgiu, especialmente na Europa, um movimento pelo "decrescimento-feliz".
O conceito de decrescimento, atualmente debatido na Europa, substitui a ideia do crescimento ilimitado pela meta de uma sociedade melhor, que consume menos. É claro que esse decrescimento não se aplica linearmente em um mundo onde 20% consomem 85% dos recursos naturais. Em consequência, 80% da população vivem com menos do que o necessário.
Em 1980, a Editora Paz e Terra publicou um livro com o título "Desordem do progresso — O fim da era dos economistas", logo traduzido em Londres com o título "The End of Economics".
Há poucas semanas, o jornalista Clóvis Rossi publicou um artigo com o título "Felicidade Nacional Bruta", em que comenta o movimento mundial em busca de um novo indicador para o progresso. O IDH — Índice de Desenvolvimento Humano — já é levado a sério. O governo francês pediu e já recebeu uma proposta, elaborada por economistas, visando a um indicador que substitua o PIB.
É inevitável que a ideia de decrescimento-feliz ganhe adeptos. Que se espalhe e seja aceita tanto quanto a ideia de crescimento dominou o século XX. Antes disso, poderá ser recusada e ridicularizada, assim como a industrialização enfrentou fortes resistências do mercantilismo e da fisiocracia.
Mas prevaleceu, porque representava a força do progresso. O decrescimento-feliz vai prevalecer graças à fragilidade da atual concepção de progresso para enfrentar a força da natureza e as insatisfações existenciais. Não deve demorar muito para que o crescimento econômico passe a ser visto com o desconforto que hoje recai sobre a gordura do corpo e o tamanho das cidades.
Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF
Gordura e superpopulação deixaram de ser sinais de riqueza inteligente, tanto para cidades quanto para pessoas. Mas as pessoas ainda resistem em perceber que a gordura que as rodeia, na forma de bens, consumidos ou de patrimônio, não é mais sinal de riqueza inteligente.
Porque essa riqueza já não cabe no mundo. As cidades vivem com suas aortas entupidas de automóveis, a atmosfera envenenada por dióxido de carbono. O organismo social padece das doenças que convenceram as pessoas a reduzirem suas cinturas. Também porque a segunda lei da termodinâmica deixa claro que nada pode crescer infinitamente em um mundo finito, com recursos naturais esgotáveis.
Depois de dois séculos de civilização industrial, principalmente na segunda metade do século XX, e muito mais com a globalização das últimas décadas, o PIB se transformou no símbolo do avanço civilizatório. Não importa se a compra vai endividar, comprometer o consumo de coisas mais essenciais à família, tirar as crianças de uma boa escola.
Não importa também se as horas perdidas no trânsito aumentam, ou se os engarrafamentos consomem tempo de vida ou provocam angústias e perdas. Como o consumo de combustível eleva o PIB, o engarrafamento passa a impressão de que a sociedade está mais rica, apesar da diminuição da felicidade geral.
Na medida em que percebemos o "desvalor" dos bens que engordam as cidades e as casas, tomamos consciência da possibilidade e da conveniência de aumentar o bem-estar graças ao decrescimento da produção de bens materiais e privados, com aumento na oferta de bens e serviços públicos e culturais. Diante da crise ecológica previsível e das insatisfações sociais já sentidas, surgiu, especialmente na Europa, um movimento pelo "decrescimento-feliz".
O conceito de decrescimento, atualmente debatido na Europa, substitui a ideia do crescimento ilimitado pela meta de uma sociedade melhor, que consume menos. É claro que esse decrescimento não se aplica linearmente em um mundo onde 20% consomem 85% dos recursos naturais. Em consequência, 80% da população vivem com menos do que o necessário.
Em 1980, a Editora Paz e Terra publicou um livro com o título "Desordem do progresso — O fim da era dos economistas", logo traduzido em Londres com o título "The End of Economics".
Há poucas semanas, o jornalista Clóvis Rossi publicou um artigo com o título "Felicidade Nacional Bruta", em que comenta o movimento mundial em busca de um novo indicador para o progresso. O IDH — Índice de Desenvolvimento Humano — já é levado a sério. O governo francês pediu e já recebeu uma proposta, elaborada por economistas, visando a um indicador que substitua o PIB.
É inevitável que a ideia de decrescimento-feliz ganhe adeptos. Que se espalhe e seja aceita tanto quanto a ideia de crescimento dominou o século XX. Antes disso, poderá ser recusada e ridicularizada, assim como a industrialização enfrentou fortes resistências do mercantilismo e da fisiocracia.
Mas prevaleceu, porque representava a força do progresso. O decrescimento-feliz vai prevalecer graças à fragilidade da atual concepção de progresso para enfrentar a força da natureza e as insatisfações existenciais. Não deve demorar muito para que o crescimento econômico passe a ser visto com o desconforto que hoje recai sobre a gordura do corpo e o tamanho das cidades.
Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Um câncer chamado humanidade
Eu queria falar agora sobre dois conceitos aparentemente desconexos, mas que tem muita relação: câncer e pegada ecológica.
Você sabe qual é a definição genérica de câncer ? Segundo os médicos, câncer é o nome dado a um conjunto de doenças que tem em comum o crescimento desordenado (e maligno) de células que invadem tecidos e órgãos e podem espalhar-se para outros órgãos.
Outro conceito recentemente criado e difundido pelos meios de comunicação e por ecologistas é o de "pegada ecológica". Este termo refere-se a quantidade física de terra e água necessária para sustentar economicamente uma determinada sociedade, foco desta medição. Assim, para medir a pegada ecológica do Brasil, por exemplo, calcula-se a área de energia fóssil que seria necessária para absorver o gás carbônico liberado em excesso na atmosfera pelas atividades industriais; a terra arável necessária para a produção agrícola das necessidades alimentícias da população; as pastagens necessárias para a criação de gado em condições minimamente razoáveis; as florestas necessárias para o fornecimento de madeira e seus derivados não lenhosos; e a área urbanizada necessária para a construção de residências e edifícios.
Segundo estudos do WWF e da instituição "Global Footprint Network" a pegada ecológica da humanidade vem aumentando nos últimos séculos apontando para uma necessidade urgente de mudanças de hábitos e mentalidade.
Assim como um câncer a pegada ecológica da humanidade vem aumentando "desordenadamente e de forma maligna".
Aliado à isso tudo, a mídia vem divulgando esforços da NASA e de consórcios espaciais internacionais para a colonização de outros planetas no sistema solar como Marte e Vênus, sendo que a ocupação da lua é algo absolutamente possível e realizável que só não foi feita até hoje por questões econômicas. Isso sem falar das já existentes estações espaciais que nada mais são do que colônias suspensas no espaço que ainda não estão em "terra" firme.
Escrevi isso tudo para traçar um singelo paralelo.
O crescimento desordenado da humanidade (pegada ecológica) é evidentemente maligno levando-se em conta os danos causados ao planeta e a própria sociedade (tecidos e órgãos) e que agora, graças aos "avanços" científicos (???), podem espalhar-se para outros planetas (órgãos), uma vez que o planeta terra está totalmente tomado, assim como um câncer.
Certa vez, assistindo um filme de ficção científica, vi pela primeira vez um dos personagens (ele era um extraterrestre) dizendo que a humanidade era um câncer e que a destruição do planeta terra seria um grande benefício aos outros planetas habitados da galáxia.
Na época eu não dei muita importância a essa associação de idéias.
Hoje eu a acho extremamente realista e atual.
O que é decrescimento?
O conceito de decrescimento econômico não é novo. Além de todas as crises econômicas, políticas e sociais vividas pela sociedade capitalista moderna, desde a década de 70 fala-se em uma alternativa racional e sustentável para o ocidente civilizado.
Nicholas Georgescu-Roegen, economista romeno, escreveu um livro chamado: "The entropy law and the economic process" onde desenvolve as alternativas ao crescimento econômico lançando as bases do decrescimento como alternativa viável ao progresso erroneamente idealizado por uma política corrupta e insana, distanciada do Homem.
O decrescimento baseia-se no fato de que o crescimento econômico infinito, amplamente perseguido pelas nações capitalistas, é impossível pela simples imposição física que o planeta terra é finito e, consequentemente, todos os recursos nele existentes também o são.
Além destes conceitos, abordaremos a explosão demográfica, a qualidade e o tamanho das empresas, o engodo da sustentabilidade e os novos conceitos da "Economia Espiritual".
Nicholas Georgescu-Roegen, economista romeno, escreveu um livro chamado: "The entropy law and the economic process" onde desenvolve as alternativas ao crescimento econômico lançando as bases do decrescimento como alternativa viável ao progresso erroneamente idealizado por uma política corrupta e insana, distanciada do Homem.
O decrescimento baseia-se no fato de que o crescimento econômico infinito, amplamente perseguido pelas nações capitalistas, é impossível pela simples imposição física que o planeta terra é finito e, consequentemente, todos os recursos nele existentes também o são.
Além destes conceitos, abordaremos a explosão demográfica, a qualidade e o tamanho das empresas, o engodo da sustentabilidade e os novos conceitos da "Economia Espiritual".
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