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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Notícia: Rio + 20 e a Amazônia (Decrescimento)

A Rio+20 e a Amazônia
8/Junho/2011 por Marco Antonio Chagas –

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), a ser realizada de 04 a 06 de junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro (Rio+20), foi convocada para pactuar um novo desafio: a economia verde ou “green economy”. Para a Rio+20 não se tornar um fracasso, a ONU enfrenta um dilema: como impor o decrescimento aos países ricos e poluidores para permitir uma transição para uma economia verde mais justa e sustentável sem sacrificar os países pobres?

A princípio, os países ricos não estão dispostos a reduzir o consumo, mas sinalizam positivamente para práticas sustentáveis. Entretanto, isso não é suficiente. Os países ricos terão que assumir o compromisso em estacionar o crescimento ou mesmo decrescer. Caso contrário, o sacrifício pelo desenvolvimento sustentável cairá nas costas dos países pobres sobre o novo discurso da “economia verde”.

Para o Governo Federal, que não é capaz de firmar políticas integradas de sustentabilidade para o País, a Rio+20 é mais uma agenda que se soma às Olimpíadas e à Copa do Mundo para afirmar ao planeta que o “Brasil é o cara!”

Pela ausência de resultados que comprovem avanços 20 anos depois da ECO 92, o discurso do desenvolvimento sustentável começou a ser apropriado pelo Governo na forma de ações demagógicas, como o pagamento de R$300 ao pobre pela conservação da natureza em detrimento de políticas públicas que garantam o acesso aos direitos básicos para uma vida decente, como a saúde e a educação.

Aos estados da Amazônia não é recomendável se alinhar ao “quase nada” do Governo Federal e sim construir democraticamente uma Agenda para o Desenvolvimento Sustentável da região que possa ser pactuada na Rio+20 sob os auspícios da comunidade internacional. Sob os holofotes da “World News” quem sabe o Governo Federal não se alinha aos estados e passe a considerar a Amazônia como integrante da nação.

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Marco Antonio Chagas, doutor em desenvolvimento socioambiental, professor da UNIFAP/Ciências Ambientais

O que é decrescimento??

RESUMO: "....A tese do decrescimento baseia-se na hipótese de que o crescimento econômico - entendido como aumento constante do Produto Interno Bruto (PIB) - não é sustentável pelo ecossistema global. Esta idéia é oposta ao pensamento econômico dominante, segundo o qual a melhoria do nível de vida seria decorrência do crescimento do PIB e portanto, o aumento do valor da produção deveria ser um objetivo permanente da sociedade. A questão principal, segundo os defensores do decrescimento - dos quais Serge Latouche é o mais notório - é que os recursos naturais são limitados e portanto não existe crescimento infinito. A melhoria das condições de vida deve, portanto, ser obtida sem aumento do consumo, mudando-se o paradigma dominante..."








O QUE É DECRESCIMENTO?



Por Edson Franco



O avanço do conhecimento humano através do desenvolvimento da técnica e da ciência tem trazido benefícios para as populações, mas também conseqüências que não são notadas no início. A conquista de relativa segurança com a vida se desenvolvendo em torno dos grandes centros urbanos, o conforto proporcionado pelo fácil acesso a inúmeros produtos industrializados, a economia de tempo com o uso dos transportes individuais em uso crescente nos grandes centros urbanos, vem trazendo, junto com todos os benefícios aparentes, efeitos colaterais bastante nocivos à sociedade. Dentre esses aspectos talvez seja o meio ambiente o que mais explicitamente demonstra sentir o impacto desses “avanços”. O decrescimento é uma proposta para resolvermos esses problemas de forma profunda e eficaz.



O conceito de decrescimento não é novo e vem sendo elaborado há muito tempo por pessoas que pensavam à frente de seu tempo. Na verdade, o decrescimento é uma evolução conceitual de várias outras propostas críticas à modernização de nossas sociedades. Já no início da década de 60, Ivan Illich (pensador austríaco) e Rachel Louise Carson (zoóloga e bióloga estadunidense) alertaram para os efeitos contraproducentes da economia contemporânea e os possíveis desastres da moderna agricultura levando à exaustão os recursos naturais, entre outros efeitos nocivos. Ernst Fritz Schumacher com o livro “Small is beautiful” em 1973 e Nicholas Georgescu Roegen com os primórdios da conceituação das leis da entropia da física aplicada à ciência econômica em 1971, até os dias atuais com Serge Latouche, o paladino do decrescimento, entre muitos outros, têm desenvolvido o que hoje se apresenta como a proposta do decrescimento econômico.



Não poderíamos deixar de citar, mesmo que não totalmente alinhado com o decrescimento, o nome de Herman Daly, que foi economista chefe do departamento ambiental do Banco Mundial. Suas idéias podem ser consideradas como uma ponte para a sociedade alcançar o estágio do decrescimento. Daly apresenta uma simplificação do conceito de “deseconomia de escala”, ou seja, algo traz um benefício até certo ponto, depois desse ponto o benefício agregado é menor do que os problemas obtidos. É exatamente isso o que está acontecendo com a economia em nível planetário: os ganhos com produção, conforto, riquezas e consumo já são menores do que as perdas com degradação ambiental, estresse e perda de saúde da população em geral.



Tal desenvolvimento do termo trouxe alguns enganos que devem ser identificados para não confundirmos com o que não é decrescimento. Um exemplo é o conceito de desenvolvimento sustentável. O decrescimento alerta que não é possível um crescimento infinito num planeta finito. A escassez de recursos naturais, energia, matéria prima, espaços físicos, entre outros, faz com que o paradigma do crescimento infinito tenha que ser superado com urgência. Por isso falar de desenvolvimento sustentável é uma forma de ludibriar e manter as coisas como elas estão, sem mudanças significativas.



Uma medida bastante usada pela mídia atualmente é a “pegada ecológica”. Usado pela primeira vez em 1992 por um professor e ecologista canadense da universidade de Colúmbia Britânica chamado William Rees, o termo: “ecological footprint” refere-se à quantidade de terra e água necessária para sustentar uma determinada população local (geralmente um país) tendo em vista todos os recursos materiais e energéticos gastos por essa mesma população. A chamada pegada ecológica da humanidade alcançou tamanhos alarmantes. O aumento do consumo dos países subdesenvolvidos, nos índices de consumo dos EUA, representaria a necessidade de termos mais 6 (seis) planetas Terra, segundo dados do World Wide Fund for Nature (WWF – Fundo Mundial para a Vida Selvagem e Natureza) de 2006.



Isso aponta para mais um problema: a superpopulação. Pesquisas da Organização das Nações Unidas demonstram que a população no planeta tem crescido sem parar e deve superar os sete bilhões de pessoas antes do final de 2011. Segundo dados recentes divulgados em um relatório elaborado pelo Departamento de Estudos Econômicos e Sociais da ONU, a população total da terra em 2100 será de 10,1 bilhões de pessoas. A falta de preocupação com o problema por parte de governos e famílias aponta para conseqüências ainda mais desastrosas: falta de alimento, de água e de trabalho para todos são algumas das dificuldades que teremos de enfrentar em futuro próximo. O aumento populacional que explodiu depois de 1800, ocasionado pela revolução industrial e pela acumulação de pessoas morando na cidade em busca de emprego mais fácil do que no campo, tornou o crescimento das cidades tão desordenado que a vida nos grandes centros urbanos se tornou um “mal necessário”.



Algumas explicações para esse crescimento desordenado estão relacionadas principalmente a duas causas estruturais: falta de educação de qualidade e péssima distribuição de renda, no mundo inteiro. Nas duas frentes, ações governamentais e institucionais que tentam “mascarar” estes problemas não os resolvem. Na primeira: educação de qualidade, pública ou privada, é um sonho distante na maioria dos países, ainda que grandes avanços tenham sido dados em alguns países europeus. No caso do Brasil a “maquiagem” governamental divulga que temos quase 100% das crianças na escola, mesmo que elas lá estejam apenas para receber uma merenda e não recebam uma boa educação formal, até porque muitas escolas não estão em condições mínimas de uso. Na segunda: uma distribuição de renda efetiva não significa concessão de bolsas por parte do governo, mas sim, garantia de acesso à renda efetiva e duradoura através de emprego, formação profissional e cidadania crítica em todos os níveis sociais. A situação atual, entretanto, mostra a seguinte equação: 80% dos recursos estão nas mãos de 20% da população mundial.



Esse modelo de desenvolvimento praticado até então foi um “erro estratégico” que trouxe para a sociedade conseqüências como queda na qualidade de vida, violência urbana crescente, desigualdade social na maioria dos países, falta de recursos energéticos para suprir a necessidade de megalópoles cada vez mais barulhentas, apressadas e poluídas, falta de importância e valorização do trabalho e do trabalhador em um mundo cada vez mais superficial onde a alienação da força de trabalho é cada vez maior, assassinato da qualidade em prol da quantidade, etc.



Os guardiões do “status quo” apelam para o exemplo de Malthus, economista britânico do final do século XVIII, que salientava a importância do controle da natalidade em razão do crescimento da população superar a produção de alimentos e que teve suas previsões naufragadas diante de um mar de investimentos na ciência e no avanço da produção em massa de alimentos, barateando os custos. Esse argumento moderno, que concede à tecnologia o poder de resolver todos os nossos problemas, ignora que a própria ciência nos apresenta o “paradoxo de Jevons”. O britânico Willian Jevons, em seu livro; “O problema do carvão” descreveu com maestria a paradoxal realidade de esperar que o aumento da eficiência e da tecnologia resolva o problema da escassez de recursos. Pelo contrário, Jevons provou que o aumento de tecnologia só faz aumentar o consumo de recursos e não o contrário.



O decrescimento econômico propõe a diminuição das atividades econômicas e financeiras em escala mundial, com aplicação em escala local; menos produção de bens comerciáveis, menos deslocamentos, menos quantidade de horas trabalhadas, menos poluição e desmatamento. O decrescimento enxerga no menos, o mais. Ivan Illich usa o exemplo do caracol que constrói a sua concha adicionando uma a uma, espirais cada vez maiores até parar bruscamente e começar a fazer voltas decrescentes cada vez menores. Apenas uma espiral a mais faria com que sua concha fosse 16 vezes maior, sobrecarregando o caracol. Com uma concha 16 vezes maior do que deveria ser, todo seu esforço seria direcionado para aliviar as dificuldades criadas por esse erro de cálculo. Com esse tamanho, os problemas multiplicam-se em progressão geométrica, enquanto a capacidade biológica do caracol só poderá crescer em progressão aritmética. O decrescimento utiliza como símbolo de suas idéias a sábia figura do caracol.



A crítica aos conceitos atuais de crescimento e riqueza da sociedade é fácil de ser entendida por aqueles que não têm medo de mudanças. Exemplo disso é a conceituação errada da economia atual da riqueza representada pelo PIB dos países industrializados. Por que dizemos que o PIB é um índice de medida de riqueza quando produzir por produzir, num ciclo vicioso que se auto-alimenta, não traz bem estar e riqueza no real sentido do termo? Porque o ciclo da economia atual não considera como bem de capital os recursos naturais e a matéria-prima que as empresas retiram da natureza sem compensações nem quantificações no impacto do custo social, como se eles fossem infinitos?



A proposta do decrescimento é ampla e envolve vários níveis de ação e vários grupos sociais. O economista francês Serge Latouche, em seu livro: “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno” lista algumas ações que devem ser postas em prática por toda a sociedade para gerar o que ele chama de “ciclo virtuoso do decrescimento”. São conhecidas como oito “R’s”:



REAVALIAR: A sociedade precisa reavaliar conceitos e valores. Os valores do passado já não são os mesmos do presente e serão diferentes no futuro. A sociedade precisa de cooperação e não competição; vida social e não individualismo; precisa substituir os valores que tinha no passado tais como consumo ilimitado e eficiência produtivista.



RECONCEITUALIZAR: Essa mudança de valores, citada no item reavaliar, pressupõe outra maneira de apreender a realidade. Reagir de forma diferente nas diversas situações enfrentadas e dar conceitos diferentes de forma a criar respostas e questionamentos mais criativos e próximos da realidade atual da sociedade, com seus desafios e problemas.



REESTRUTURAR: Reestruturar é mudar o enfoque industrial, adaptando o aparelho de produção a essa mudança de mentalidade desejada. Essa transformação passa pela desconstrução do capitalismo na forma que o conhecemos.



REDISTRIBUIR: Obtendo essas mudanças conseguiremos uma mudança nas relações sociais o que acarretará uma redistribuição dos bens, dos valores, dos saberes, das riquezas e de tudo que for necessário para as próximas gerações.



RELOCALIZAR: Relocalizar significa redirecionar o foco da produção de bens, mudando a localização da produção das mega-indústrias para as unidades familiares de forma a dar mais autonomia para o individuo ter uma vida com mais significado, profundidade, felicidade, respeito e valor intrínseco. O conceito leva em conta a necessidade de descentralização das administrações e dos poderes públicos e privados.



REDUZIR: Esse conceito é bastante abrangente e compõe o cerne da proposta do decrescimento. Reduzir o nosso impacto na biosfera e nossa pegada ecológica no planeta, reduzir o tamanho e o peso da população mundial com metas programadas factíveis e graduais, reduzir nosso consumo de produtos não essenciais ao novo modelo, reduzir nosso tempo gasto em atividades que nos distancia da vida e do bem estar comum e individual.



REUTILIZAR e RECICLAR: Reutilizar e reciclar já são atividades adotadas em nossa sociedade atual de forma que não é tão necessário discorrer sobre elas. Todos já conhecem seus benefícios e sabem como empreendê-las.







Para saber mais acesse: http://br.groups.yahoo.com/group/decrescimento







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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Entropia na economia

Nicholas Georgescu-Roegen preocupou-se com o problema da entropia na ciência econômica ao basear suas teorias sobre a necessidade do decrescimento. Para entender melhor este conceito postamos a entrevista abaixo com o Dr. Mario Bruno Sproviero, Professor titular DLO-FFLCHUSP, originalmente em: http://www.hottopos.com/vdletras2/mario.htm

Entropia: "Progresso" para a Destruição!

(Entrevista e edição: Jean Lauand, 10-7-01)



JL: Qual o alcance e o significado do tema "entropia" no mundo de hoje?



MBS: Com o problema da entropia ocorre um fenômeno curioso: apesar de ter a máxima importância, afetando diretamente - a curto, médio e longo prazo - a própria sobrevivência humana no planeta, tem sido bem pouco divulgado e assim praticamente ignorado pela opinião pública.



Recentemente, foi publicado na Europa a tradução atualizada do clássico Enthropy de Jeremy Rifkin, que apresenta a tendência universal de todos os sistemas - incluídos os econômicos, sociais e ambientais - a passar de uma situação de ordem à crescente desordem. Portanto, deve ser discutido por toda a sociedade, em todos os seus setores e não apenas em círculos especializados de cientistas.



JL: Por que o descaso com o problema da entropia, se se trata de tema tão grave e premente?



MBS: Para a visão mecanicista do mundo, tipicamente moderna, na linha que une Descartes, Galileu, Bacon, Newton, Locke e Adam Smith (este na economia e Locke na concepção social), a idéia de progresso é tão conatural que nem pensamos em discuti-la. Ora, nosso tema incide precisamente neste ponto: "a lei da entropia mina a idéia da história como progresso. A lei da entropia destrói a idéia de que a ciência e a tecnologia criam um mundo mais ordenado".



Numa visão mecanicista, a ênfase está unicamente no que se ordena e se desconsidera a desordem causada pela ordenação. É como se ignorássemos, por exemplo, o problema do lixo ao arrumarmos nossa casa. Quando a casa é o próprio planeta pensar que "o resto" não interessa é a síndrome do avestruz...



JL: Comecemos pela caracterização e definição de entropia



MBS: Originalmente, "entropia" (troca interior) surgiu como uma palavra cunhada do grego de em (en - em, sobre, perto de...) e sqopg (tropêe - mudança, o voltar-se, alternativa, troca, evolução...). O termo foi primeiramente usado em 1850 pelo físico alemão Rudolf Julius Emmanuel Clausius (1822-1888).



Para caracterizar a entropia, vamos partir de uma renomada autoridade, o físico Enrico Fermi, um dos pais da bomba atômica. Em seu Thermodynamics, ele define a primeira lei da termodinâmica:



"A primeira lei da termodinâmica é essencialmente a afirmação do princípio de conservação da energia para sistemas termodinâmicos. Como tal, pode ser expressa do seguinte modo: 'A variação de energia num sistema durante qualquer transformação é igual à quantidade de energia que o sistema troca com o ambiente'. Esta primeira lei não coloca limitações sobre as possibilidades de transformação de energia de uma forma para outra".



Ora, essa possibilidade ilimitada de transformação é a base de toda a civilização do progresso. Já a segunda lei da termodinâmica impõe severas limitações: "É ímpossível uma transformação cujo resultado final seja transformar em trabalho todo o calor extraído de uma fonte" (postulado de Kelvin).



JL: Como se traduz isto em termos gerais?



MBS: O primeiro princípio estabelece que a energia não pode ser criada nem aniquilada. Há ainda um terceiro princípio -o do equilíbrio- que indica que dois corpos -ambos em equilíbrio térmico com um terceiro- se colocados em contato, encontram-se em equilíbrio entre si.



O curioso é que historicamente o próprio primeiro princípio tenha causado tanta oposição e resistência para ser aceito, porque havia o ideal de construir uma máquina que pudesse efetuar trabalho sem consumir energia (motu perpetuo da primeira espécie). Em linguagem leiga, o segundo princípio indica que, com o tempo, dispomos sempre menos de energias utilizáveis. Ou, resumindo: "a energia total do universo é constante e a entropia (a desordem) total está em contínuo aumento".



Estamos, então, num universo que se degrada energeticamente, e esta realidade deveria levar a um dispêndio minimal das energias disponíveis, ainda mais no sistema de nossa pobre Terra, cujos materiais utilizáveis são muito limitados. Portanto, a produtividade não deveria ser medida pela maior quantidade de bens econômicos produzida num determinado período de tempo, mas sim pela maior quantidade produzida com o menor dispêndio energético possível. E, do mesmo modo, criar a ordem que deixe menos desordem (em outros âmbitos).



JL: Estas leis da termodinâmica são sempre válidas ou trata-se de um provisório modelo científico a mais?



MBS: Este é o ponto central. Para o autor - e ao que tudo indica ele tem plena razão - trata-se de lei fundamental e Albert Einstein - em uma de suas reflexões - observou: "Uma teoria é tanto mais emocionante quanto mais simples são suas premissas, mais diversas as categorias de fenômenos a que se refere, mais vasto seu campo de aplicabilidade. Esta é a razão pela qual a Termodinâmca clássica sempre me causou profunda impressão: é a única teoria física de conteúdo universal da qual estou convencido que, no campo de aplicação de seus conteúdos basilares, nunca será superada".



Diante dessa universalidade da lei da entropia, procura-se "atenuá-la" de dois modos: ou tentando tirar-lhe universalidade, por meio de uma nova ciência, a Mecânica Estatística (Ludwig Boltzmann), na qual (no mundo sub-atômico) poderia haver exceções; ou tentando reconhecer-lhe significado prático apenas para longos ciclos como o do apagón do sol, previsto para períodos cósmicos de tempo. Na verdade, mesmo que concedêssemos essas exceções para partículas, tratar-se-ia de casos análogos à famosa imagem de milhares de macacos datilógrafos escrevendo, ao acaso, ao longo de milhares de anos, a Comédia de Dante. Quanto ao caso do sol, basta dizer que nossos ciclos, evidentemente, são de dimensões humanas e não cósmicas. O fato indubitável é que a entropia nos afeta radicalmente.



JL: Se se trata de uma lei universal, porque só agora vêm à tona seu caráter destruidor?



MBS: Dado que a simples experiência sempre constatada de que nunca espontaneamente o calor de um corpo mais frio tivesse passado para um corpo mais quente, é estranho que não se tivesse tido uma formulação anterior. Um parênteses: refiro-me aqui a formulações científicas, pois a intuição do fenômeno, sim, foi captada sempre. Desde o "Tempus edax rerum", o tempo que consome as coisas, do poeta latino, "o tempo, que estraga todas as coisas", a um São Pedro que afirma que o mundo agora existente está reservado para o fogo (II Pe 3, 7). O problema da entropia não seria destruidor se tívessemos outra Weltanschauung: como nossa visão de mundo, o consumismo, é algo de conatural e o progresso é seu imperativo ético, então realmente estamos num beco sem saída. Um São Francisco de Assis, por exemplo, não estaria na crise que estamos. Em nosso sistema, que não concebe nenhum significado espiritual de pobreza e, portanto, da própria existência, e faz do supérfluo mais essencial que o essencial, a não-disponibilidade de energia esvazia completamente a existência. Daí o caráter auto-destruidor do progresso. É nesse sentido que Heidegger (1889-1976) comenta a "penúria de nosso tempo", incapaz de dar-se conta de que a verdadeira penúria não é a material, mas a de não considerar como uma ausência, a ausência do Essencial (a propósito do terrível verso de Hölderlin: "Wozu Dichter in dürftiger Zeit?" - "Para que poetas em tempos de penúria?). Para Francisco, como se sabe, a pobreza não leva à tristeza de perder coisas, mas à alegria de livrar-se de coisas...



JL: Qual a relação entre tempo e entropia?



MBS: A entropia é a inversão do tempo, ou seja, esse aspecto do tempo pelo qual quanto mais se regride no tempo, mais "intenso" é o tempo. E quanto mais se progride mais "diluído" é o tempo. É o tempo em seu aspecto negativo: nós estamos acostumados a pensar no devir do cosmos como um progressivo vir-a-ser, mas, na verdade, trata-se de um regressivo deixar-de-ser sem aniquilar-se: acumula-se um "entulho de ser". Como mostram muito bem os físicos Bernhard e Karl Philbert, não só o espaço é função do tempo, mas o próprio tempo é função do tempo. Não podemos pensar num tempo uniforme e linear e separado das coisas, mas num tempo entrópico, que se degrada com o tempo, tendendo assintoticamente ao fim do próprio tempo; ou, como se poderia dizer satiricamente: "o tempo vai morrer com o tempo" (ou na visão joanina: "Não haverá mais tempo" Ap 10, 6).



JL: Isso explicaria a aceleração dos ciclos de energia ao longo dos tempos cósmicos, geológicos, biológicos e, mais recentemente, históricos?



MBS: Precisamente. Há um paralelo ilustrativo com o tempo da vida de um homem. A "entropia" orgânica evidenciada pelo envelhecimento nos dá a vivência do despencar do tempo; e a morte, de sua implosão.



Os ciclos históricos nos mostram esse fato claramente. As crises de energia não são apanágio de nossos dias. Na Europa, na busca de energia (pensemos em necessidades domésticas, de calefação etc.) o "ciclo da madeira" começou a entrar em crise no século X e agravou-se de modo total no século XV (após mais de um milênio de exploração...), principalmente na Inglaterra, compelindo ao ciclo do carvão (o ciclo mais sujo da História), que durou quase quatro séculos... Sempre em períodos cada vez menores, temos o nosso ciclo, que dura cerca de cem anos, centrado no petróleo: seu esgotamento prevísivel é para algo em torno do primeiro quartel deste século.



Surge então o problema: e depois? Aqui é que entra o caráter trágico dessa nossa encruzilhada histórica. Por um lado, a proposta de basear-se fundamentalmente nesta lei, tirando dela todas as conseqüências, e mudar completamente os hábitos de nossa civilização, salvar o salvável (se possível...) numa desglobalização urgente (com a correspondente descentralização da energia); ou, por outro lado, partir para uma super-globalização, radicalmente uniformizadora, que nos lançaria em um ciclo ainda mais complexo, o da biotecnologia (engenharia genética etc.), que nos daria uma locupletação provisória -de infernal complexidade - e, afinal, de duração ainda mais curta e esgotando todas as matérias e recursos do planeta.



Não é o caso aqui de entrar em detalhes (para isto está a obra de Rifkin), mas há, a olhos vistos, uma assustadora degradação da terra e uma evidente correlação entre nossas crises de energia, abastecimento ("vaca louca", "febre aftosa", agrotóxicos e todas as outras disfunções de uma uma agropecuária plantada e nutrida no petróleo), desertificação crescente, sempre mais lixo etc. e a crescente entropia... É um ciclo vicioso: a crescente demanda de energia torna sempre mais complicada, custosa e danosa sua obtenção.



Valho-me aqui de duas metáforas clássicas: o aprendiz de feiticeiro gera forças que acabam por destruí-lo e o diabo - na horripilante imagem de Jacob Böehme (1575-1624) - desatinou e incendiou-se no afã de consumir-se desfrutando de si mesmo. Parece a alternativa da biotecnologia: esgotando (também no sentido de tornar esgoto) de vez os recursos planetários para manter os vícios de nossa sociedade de consumo.



JL: Mas não há a possibilidade de reversão desse quadro por meio de uma nova e inesperada fonte de energia?



MBS: De fato, há uma especulação, no âmbito da ficção científica, propondo todo tipo de "soluções" disparatadas, até a reversão do tempo - outro desejo delirante de negar a realidade entrópica.



Se considerarmos que a energia atômica traz tremendas complicações ambientais (Chernobyl foi o maior desastre da história da tecnologia) e entrópicas (inviabilizada a fissão nuclear, tende-se à fusão nuclear a frio, que é a tradução em termos energéticos da utópica máquina de motu perpetuo), a única energia disponível não explorada é a solar, mas não dispomos de tecnologia adequada: um aproveitamento não mediatizado por processos fortemente entrópicos (o remédio que mata o doente).



Ou em termos mais práticos e realistas: Yergin (vide Bibliografia) faz notar que a Guerra do Golfo tornou evidente que, no momento, a única energia disponível para sustentar o sistema é o petróleo. Senão, por que a guerra? E será mero acaso a presença da texana família Bush (que, como se sabe, é ligada ao monopólio do petróleo) no vértice de poder do planeta?



Ocorre com as tentativas de "driblar" a entropia um fenômeno paralelo ao que ocorre com as tentativas de subtrair-se às limitações da Álgebra. Como se sabe, pelo Teorema Fundamental da Álgebra, uma equação de grau n admite n raízes. Porém, a partir do grau 3, salvo casos particulares, não há algoritmo universal para determinar essas raízes. Diante de uma impossibilidade demonstrada, ninguém vai perder tempo procurando um algoritmo inexistente (ou, para dar outro exemplo matemático, a quadratura do círculo). Do mesmo modo, levando a sério os princípios da entropia, ninguém deveria - em sã consciência - insistir nessa linha. Claro que a humanidade como um todo, com seus grupos e interesses difusos (e sobretudo quem dispõe do poder), não funciona com tal racionalidade...



JL: E que soluções se apresentam, se tomarmos existencialmente a questão da entropia?



MBS: Aqui é realmente trágico. Rifkin fala de uma volta radical a um ritmo natural no qual se deve reverter drasticamente o sentido do fluxo campo-cidade, as pessoas deveriam voltar ao campo, as cidades não deveriam comportar mais do que cem mil habitantes e a população mundial não superar um bilhão de habitantes. É precisamente com base nessas constatações que surgem atualmente grupos de fanáticos como o Aum Shinrikyô. Pouca gente deu atenção ao fato de que o famoso atentado no metrô de Tóquio, o do gás sarin, foi motivado por uma ideologia de eliminação de estratos inferiores da (super) população. De fato Shoko Asahara estava ligado aos militantes russos seguidores de Vladimir Zhirinovskij e, presumivelmente, à proscrita extrema direita alemã do NSDAP (Partido Nacional-Socialista do Trabalho). Nem cabe portanto considerar a disparatada proposta rifkiniana de reduzir a população de seis para um bilhão.



JL: Ampliando para outros âmbitos: como a idéia de entropia afeta a Educação?



MBS: Rifkin menciona a experiência - vivida por qualquer estudante - de "varar a noite", fazer um exame de manhã e à tarde já ter esquecido tudo. Esse "esquecido" permanece como lixo cognoscitivo não eliminado. Há um fato constatado nos Estados Unidos: com toda a parafernália de informática e equipamentos há um grande número de alunos que não conseguem aprender ou, o que é pior, ganham aversão ao estudo. E os que sintonizam com essa aparelhagem, robotizam-se e constata-se um grande aumento de doenças mentais desde o "boom" da informática. O novo ideal jã não é o "animal", mas a "coisa" (daí certos novos gêneros musicais, certa cromática de cabelo e de roupas etc.)



Recordemos que Kant considerava que para pensar seriamente algum problema a mera leitura de um jornal já constituía um obstáculo. Hoje, se considerarmos a avalanche de informações recebidas (desde as inúmeras competições esportivas simultâneas até os noticiários, locais, regionais, nacionais e internacionais, passando por uma publicidade onipresente e crescentes exigências de competência técnica e intelectual), sem possibilidade de síntese, não é difícil perceber a entropia na educação. Nesse sentido Goethe (1749-1832), no Fausto, põe na boca do diabo: "Não sou onisciente, mas muito me é conhecido" que, podemos maximalizar para: "Eu sei tudo, mas não sou onisciente". Contrapõem-se os saberes de uma pluralidade sempre crescente, sem possibilidade de síntese, "falso infinito", ao saber onisciente de Deus: tudo sabe em um único ato de infinita simplicidade, o verdadeiro infinito.



Os clássicos conceitos chamados "transcendentais do ser" (uno, bem, verdadeiro, belo) já tinham sido historicamente preteridos pela sua negação: ao ser, o nada; ao bem, o mal; ao verdadeiro, o falso; ao belo, o feio. Apenas o transcendental "uno" permanecia intacto, a pós-modernidade encarregou-se de afirmar a superioridade da pluralidade sobre a unidade: paradoxalmente, apesar da ênfase no pluralismo, nunca tivemos uma cultura global tão homogênea. E, em termos filosóficos, aniquila-se a intuição em favor de um exacerbado raciocínio auto-gerador (Hegel): exaustivos emaranhados conceituais em detrimento da intuição que incide diretamente sobre o real. Especular sem intuição é o equivalente a operar sem energia: eis a entropia no conhecimento: uma espécie de aparelho especulativo de motu perpetuo.



JL: Qual o papel do computador e da informática na entropia?



MBS: Por um lado, o computador permite operacionalizar as transformações de energia, acelerando o esgotamento dos limitados recursos de energia e materiais. Por outro lado, o computador é a realização concreta desse abstrato que Heidegger (e o fato incrível é que Heidegger sequer conheceu os computadores) chamava de Ge-stell (dis-positivo, aparelho, aparato, armação, estante etc.): "Já que a essência da técnica moderna repousa no Ge-stell, daí decorre a necessidade da técnica de empregar a ciência exata da natureza. Daí origina-se a aparência enganadora de que a técnica moderna seja ciência natural aplicada". Resumindo, temos uma ciência abstrata, uma realidade virtual (formada pela tecnologia) e uma base real: o esgotamento energético real (não intuído).



Pode-se dizer que a revolução informática do aparelho - dispositivo que produz informação - completou a revolução industrial da máquina - dispositivo que produz trabalho. Máquinas e aparelhos são, na atual crise, já visíveis como agentes do nihilismo da demiurgia humana.



JL: Como sinólogo, como vê a posição da China diante dessa problemática?



MBS: Rifkin faz notar -e com razão- que a China é a nação melhor preparada para o colapso energético que se aproxima e aconselha as nações do terceiro mundo a uma "volta ao campo", para atenuar o impacto dessa crise. A China foi o único império da História baseado na agricultura, sem nunca ter perdido tal base. Este fato foi objeto de grandes dificuldades para a China revolucionária, provocando inclusive a chamada "revolução cultural", que tentava apagar um passado sem dialética entre cidade e campo. No entanto, o próprio Mao Tsé Tung (1893-1976) apostava (justamente por essa base rural) que num conflito nuclear a China seria a nação sobrevivente. Por isso, a China pós-revolução cultural procurou a modernização evitando o êxodo do campo. Esse êxodo do campo foi apontado como o erro sul-americano e especialmente "o erro brasileiro" (baxidecuowu, em chinês).



De fato, é preciso reconhecer esse baxidecuowu, a fragilidade do sistema brasileiro: como poderá pois uma São Paulo, com seus 17,8 milhões de habitantes, sobreviver sem área rural própria?



Não acredito, porém, que se possa prever quais países terão melhores condições de sobrevivência: o caos será globalizado...



JL: Quer dizer que nos encontramos diante de duas alternativas diametralmente opostas?



MBS: Sim, por um lado, a proposta da biotecnologia, criando mirabolantes realidades virtuais; por outro, o retorno a uma era de economia descentralizada, uma "idade da pedra" altamente técnica. Em seu "testamento" Heidegger diz: "O homem está-aí, responde, e é desafiado por um poder que se revela na essência da tecnologia e que o próprio homem não domina..."



JL: Mas que críticas podem ser feitas ao dilema de Rifkin?



MBS: Ambas movem-se no âmbito do mecanicismo pragmatista: uma expansivista; outra retraente. Rifkin apela para o ecletismo religioso, mas apenas para instrumentalizá-lo a serviço da civilização do mínimo desgaste entrópico, com sua população reduzida.



Heidegger é, a meu ver, mais realista: "A filosofia bem como o pensamento e a ação do homem não vão conseguir provocar uma mudança na atual situação do mundo. Nós temos apenas esta possibilidade, através do pensamento e da poesia, de nos preparar para a chegada do deus ou então para a ausência de deus, o fim, que nós na ausência de Deus iremos viver".



JL: Trata-se, então, do próprio Apocalipse?



MBS: É alguém tão inesperado como Heidegger, que em sua entrevista-testamento, aponta para o Apocalipse. Ele cita seu poeta Hölderlin:



"Wo aber Gefahr ist, wächst



Das Rettende auch"



"Onde, porém, perigo é, cresce o salvífico também"



Ora, o título desse poema é Patmos, que, como se sabe, é a ilha do Apocalipse!!! E a mensagem do Apocalipse é que Deus nos salva na destruição humana inevitável.



JL: Já que estamos no assunto, trata-se então de uma leitura pós-moderna da parábola do filho pródigo: o homem toma a sua parte na herança (recursos energéticos e materiais), malbarata-a, esgota-a e, ao final, só lhe resta uma salvação "de fora"?



MBS: É. Ou Deus nos salva, pois a nova era já era, ou...



Bibliografia citada



Rifkin, Jeremy Entropia, Milano, Baldini & Castoldi, 2000



Philberth, Bernhard und Karl Das All, Stein am Rhein Verlag, Schweiz, 1994



Fermi, Enrico Thermodynamics, New York, Dover, 1996



Yergin, Daniel O Petróleo, São Paulo, Escrita, 1994



Heidegger, M. Die Technik und die Kehre, Neske Verlag, Stuttgart, 1996

sexta-feira, 4 de março de 2011

Como se faz uma revolução cultural. (Artigo de Serge Latouche)

“O decrescimento é uma arte de viver. Uma arte de viver bem, em acordo com o mundo. O objetor do crescimento é também um artista. Alguém para quem o gozo estético é uma parte importante da sua alegria de viver.“
A reflexão é do economista e filósofo francês Serge Latouche, conhecido defensor do "decrescimento sustentável", em artigo para o jornal L'Unità, 25-02-2011. O trecho faz parte de seu livro Come si esce dalla società dei consumi. Corsi e percorsi della decrescita, Ed. Bollati Boringhieri, 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A via do decrescimento é uma abertura, um convite a encontrar um outro mundo possível. Esse outro mundo nós o chamamos de sociedade do decrescimento.
O convite é a viver aqui e agora, e não em um hipotético futuro que, embora desejável, talvez não veremos nunca. Esse outro mundo, portanto, está também naquele em que vivemos hoje. Está também em nós. O caminho é também um olhar, um outro olhar sobre o nosso mundo, um outro olhar sobre nós. (…)
A "common decense"

A via do decrescimento é, portanto, acima de tudo, uma escolha. (…) É, em todo o caso, um caminho de saída da enorme decadência gerada pela sociedade do crescimento. Um caminho de saída para recuperar a estima de si mesmo. É o caminho para reconstruir uma sociedade decente. Uma sociedade decente, diz o ensaio, é uma sociedade que não humilha os seus membros. É uma sociedade que não produz lixo.
A via do decrescimento é também a "common decense" de George Orwell. A decência comum significa ter controle, estar atento, ser capaz de ter vergonha por aquilo que é feito ao mundo e às pessoas. "Ser desenvergonhado – diz Bernard Stiegler – significa ter se tornado incapaz de ter vergonha". A sociedade do crescimento é um mundo desenvergonhado, um mundo em que reina o desprezo. E o desejo de fugir do desprezo é uma aspiração universal (talvez a única verdadeiramente universal) que se realiza apenas nas sociedades decentes. A ausência de controle, a falta de atenção equivalem à ausência da decência comum definida por Orwell. Um mundo decente talvez não é mundo de abundância material, mas é um mundo sem miseráveis e sem sujeira. (…)
Quando dizemos que o decrescimento é um projeto político, entendemos que é também uma ética, porque, para nós, como para Aristóteles, a política não é concebível sem uma ética, e vice-versa, mesmo que seja oportuno não confundir os dois planos. Uma política que fosse apenas uma ética seria impotente ou terrorista, mas uma política sem ética (como a que vivemos principalmente a partir da reviravolta dos anos 90, do grande salto para trás neoliberal) vê o triunfo da banalidade do mal. (…)

A via do decrescimento é também o da emancipação e da conquista da autonomia. É a busca pela liberdade verdadeira e não da sua caricatura, a do hedonismo desenfreado e sem regras, proposta pela publicidade e pelo marketing e promovida pelo novo espírito do capitalismo, falsamente alegre e de fato mortífero. (...)
A via do decrescimento é uma saída de emergência do beco sem saída da imundialização [immondializzazione, jogo de palavras entre imundo e mundialização]. O caminho do crescimento é um exílio. É a travessia do deserto rumo à terra prometida, mas é também um oásis no deserto do crescimento. "A revolução – adverte Jérôme Baschet – não tem sentido se ela não é concebida, ao mesmo tempo, como uma festa, se é privada daquelas ocasiões tão importantes como um baile ou uma explosão de risos... É vão querer combater a alienação com formas alienadas... É preciso admitir a impossibilidade de conduzir uma verdadeira luta pela humanidade sem começar a perceber, no próprio processo dessa luta, a verdade da humanidade à qual se aspira, sem reconhecer o direito ao prazer e a necessidade de uma poesia que nada mais é do que o nome dado a uma existência verdadeiramente digna do homem".(...)
O decrescimento é uma arte de viver. Uma arte de viver bem, em acordo com o mundo. O objetor do crescimento é também um artista. Alguém para quem o gozo estético é uma parte importante da sua alegria de viver. (…) Fazer da sua própria vida uma obra de arte não é o objetivo, mas um dos resultados.
A via do decrescimento é uma ascese. Limitando-se ao aspecto curativo e à luta contra a toxicodependência do consumismo, pode-se retomar a ideia de Ivan Illich do "tecnojejum". O decrescimento é um exercício de emancipação das próteses técnicas, uma libertação da servidão voluntária e uma alienação à autonomia.

A via do decrescimento é uma conversão de si mesmo e dos outros. A conversão exigida para realizar a transformação social necessária e desejável pressupõe que se crie uma atitude de acolhida e de abertura a essa mudança. Essa educação é, ao mesmo tempo e indissoluvelmente, saber e ética, resistência e dissidência. (…)
A via do decrescimento é reconquista da realidade e da terra que é o seu princípio. Trata-se de habitar a terra como um território, um lugar de cumplicidade e de reciprocidade. De reencontrar a nossa intimidade com uma dimensão originária. "Hoje, uma linha de horizonte técnica – escreve de modo inspirado Xavier Bonnaud – separa o ser humano da fauna e da flora. Esses elementos que o ser humano tem afastado, enfraquecido e canalizado não produzem mais nele aquelas relações afetivas profundas que derivavam de um contato direto". (…)
A via do decrescimento é a da crítica livre. É a da autolimitação e não do desencadeamento sem freios das paixões tristes. O decrescimento quer retomar o programa de emancipação política da modernidade, enfrentando as dificuldades que a sua realização comporta. A experiência autenticamente democrática instaura uma experiência de transcendência do homem no homem que permite sair das aporias do igualitarismo. Como diz o filósofo belga Robert Legros: "Reconhecer uma limitação dos poderes do homem que não seja uma autolimitação significa claramente admitir uma heteronomia no centro da autonomia. Interpretar essa limitação como uma norma inscrita na humanidade do homem, e não como uma norma de origem religiosa, significa tentar compreender o sentido de uma heteronomia propriamente democrática".
Se o decrescimento e o projeto de construção de uma sociedade autônoma realizam o sonho de emancipação dos Iluministas e da modernidade, não fazem isso por meio de uma desvinculação da ligação com a natureza e do enraizamento na história, mas, ao contrário, reconhecendo a dupla herança da nossa naturalidade e da nossa historicidade. É preciso lutar contra a ilimitação do indivíduo e da sua relação com a natureza que pretendemos criar.
A via do decrescimento é essa luta. A via do decrescimento é uma emancipação da religião do crescimento. Requer, portanto, necessariamente, também um "descrer". É preciso abolir a fé na economia, renunciar ao ritual do consumo e ao culto do dinheiro. Para os teólogos Alex Zanotelli, Pe. Achille Rossi, Pe. Luigi Ciotti e Raimon Panikkar, assim como para Ivan Illich ou Jacques Ellul, a sociedade do crescimento apoia-se sobre uma estrutura de pecado.
Contrariamente à fórmula desventurada da encíclica Populorium progressio, o desenvolvimento não é o novo nome da paz, mas sim o da guerra, guerra pelo petróleo ou pelos recursos naturais em via de exaurimento. Na sociedade do crescimento, não haverá nunca mais nem paz nem justiça. Ao contrário, uma sociedade do decrescimento trará novamente ao seu próprio centro a paz e a justiça.
Não queremos cair na ilusão de uma mítica sociedade perfeita, em que o mal seria erradicado definitivamente, mas sim inventar uma sociedade dinâmica, que enfrenta as suas inevitáveis imperfeições e contradições, dando-se como horizonte o bem comum, ao invés da avidez desenfreada. A via do decrescimento não é uma religião nem uma antirreligião: é uma sabedoria.
Para os objetores do crescimento, a busca dessa via é um dever, mas não é um imperativo categórico de tipo kantiano, embora assumamos o imperativo kantiano assim como reformulado por Hans Jonas: "Age de modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a terra".

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Decrescimento sereno: um conceito altamente polêmico

Por: Beja Santos (Fonte: http://va.vidasalternativas.eu/ )

Serge Latouche é o grande paladino do modelo de decrescimento sereno e sustentável. As suas teses acabam de aparecer entre nós e seguramente que vão alimentar discussões, sobretudo nos meios ligados à ecologia, aos modelos econômicos alternativos e à alterglobalização: “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno”, por Serge Latouche, Edições 70, 2011. Outrora, falava-se em reduzir, reutilizar e reciclar. Na sua proposta para o decrescimento sereno convivial e sustentável, Latouche propõe: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar e reciclar. Vivemos no mundo em que os danos ambientais estão largamente denunciados mas como temos a nossa refeição garantida todos os dias, tudo pretendemos ignorar. Há décadas que se fala nos riscos a prazo de um conjunto de substâncias como o pesticida, muito pouco se fez; quase todos os dias emanam relatórios perturbadores de entidades respeitáveis, continuamos vergados ao crescimento pelo crescimento, parece que há uma incapacidade generalizada para pôr um travão a este bólide sem condutor, sem marcha atrás e sem travões.

Fazendo fé à argumentação de Latouche, vamos passar em revista os dados fundamentais deste projeto de sociedade de decrescimento que o autor apresenta como a única alternativa que se pode pôr a uma previsível catástrofe ecológica e humana. Primeiro, a despeito de muita indiferença dos meios políticos dominantes, há uma gradual atenção ao decrescimento que já aparece associado à rejeição do crescimento ilimitado o tal que se pauta pelo culto irracional e quase idólatra do crescimento pelo crescimento. Retomando enunciados e olhares que vêm da contestação ambiental e de muitos intelectuais alternativos, o projeto de decrescimento orienta-se para uma sociedade em que se viverá melhor, trabalhando e consumindo menos. O conceito de desenvolvimento sustentável fundamenta-se em ambigüidades e equívocos, tudo leva a crer que os economistas que no fundo suspiram só pelo crescimento pelo crescimento até gostem do conceito, tão neutro que ele é. A economia neoclássica condescende com a necessidade de apregoar a sustentabilidade, mas no fundo mantém-se indiferente às leis fundamentais da biologia, da química e da física. Esses economistas negam a bioeconomia, ou seja, rejeitam pensar a economia no interior da bioesfera. Segundo, a sociedade em que vivemos é a da acumulação ilimitada, nela o importante é criar desejos ao consumidor, dar-lhe crédito para ele nunca deixar de consumir e programar os produtos para que se renove regularmente a necessidade de sua substituição. Chegamos assim a uma pegada ecológica insustentável, vivemos do rendimento e do patrimônio. Os excessos cometidos têm sido tão grandes que não há ninguém que não se interrogue se não estamos a preparar o nosso desaparecimento: uma guerra atômica, através de pandemias, esgotando os recursos naturais e destruindo a biodiversidade, mediante alterações climáticas que tornem a existência inviável.

As discussões sobre o modelo econômico alternativo prosseguem, mas parece que ninguém quer pôr em causa a lógica de desmesura do sistema econômico. Terceiro, para entender o decrescimento é necessário compreender o ciclo dos oito “R” que Latouche preconiza: reavaliar (os valores do passado são incompatíveis com os desafios do presente, precisamos de cooperação, vida social, autonomia como os valores indispensáveis para substituir a competição desenfreada, o consumo ilimitado e a eficiência produtivista); reconceptualizar (porque esta mudança de valores pressupõe uma outra maneira de apreender a realidade); reestruturar (ou seja, adaptar o aparelho de produção a essa mudança de valores o que significa que se terá de pôr em causa e muito provavelmente abandonar o capitalismo); redistribuir (a reestruturação das relações sociais acarretará uma distribuição); relocalizar (produzir localmente uma parte fundamental do que é indispensável para satisfazer necessidades da população); reduzir (para diminuir o impacto na bioesfera das nossas maneiras de produzir e consumir); reutilizar/reciclar (aqui parece estar toda a gente de acordo, é um conceito pacífico). Destes oito “R” três têm um papel estratégico, como escreve Latouche: a reavaliação, porque ela preside a toda a mudança, a redução porque condensa todos os imperativos práticos do decrescimento e a relocalização porque diz respeito à vida quotidiana e ao emprego de milhões de pessoas. Relocalizar será inventar a democracia ecológica local com as suas relações transversais, virtuosas e solidárias, com um elevado grau de auto-suficiência alimentar, mas também econômica e financeira.

O que nos remete para um valor profundo da regionalização, ela própria com uma decrescente pegada ecológica graças à produção e ao consumo sustentáveis e uma elevada riqueza em iniciativas locais decrescentes. Quarto, reduzir será contrariar a irracionalidade da globalização, onde camarões dinamarqueses são descascados em Marrocos e regressam à Dinamarca, lagostins escoceses são expatriados para a Tailândia para ser descascados à mão e regressar à escócia para ser cozidos. Esta globalização irracional assenta no uso indiscriminado transporte e na indiferença pela velocidade. Este decrescimento, como é óbvio, carece de um programa político, não pode ser implementado sem uma grande adesão das populações: para reduzir a pegada ecológica; para se aplicar eco taxas; para se fixarem atividades econômicas e pessoas em meio local, para encorajar uma produção o mais local, sazonal, natural e tradicional que for possível; para transformar os ganhos de produtividade em redução do tempo de trabalho e em criação de empregos; para reduzir os desperdícios de energia; e para impulsionar os chamados bens relacionais, como a amizade e o conhecimento. Estamos pois no centro das grandes controvérsias: nesta acepção do decrescimento o que seria o pleno emprego, que modelo capitalista se poderia institucionalizar, isto logo à cabeça. Está aberta a grande discussão.

Em jeito de conclusão, é bom que se diga que os partidários do crescimento são rotulados de todas as enormidades: são contra o progresso, contra o turismo de massas, a inovação e competitividade, por exemplo. Latouche responde que a realização de uma sociedade de crescimento passa necessariamente por um reencantamento do mundo, o que ninguém sabe muito bem o que quer dizer. Querer travar a banalização das coisas requer artistas e entusiastas pelo decrescimento. Resta saber qual a adesão que este modelo alternativo encontrará qual o entusiasmo a este modo de vida gradual e serenamente decrescente. As grandes discussões vão agora começar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A proposta do decrescimento não passa apenas pelo campo econômico. Passa também por todos os outros setores da vida humana. Vamos falar um pouco sobre a necessidade urgente de decrescimento populacional no planeta terra e sobre a conscientização das pessoas a respeito da importância desse decrescimento.

A quantidade de habitantes no mundo manteve-se quase a mesma desde épocas muito remotas como o ano 10000 A.C. No ano 1 da era cristã a população mundial tinha cerca de 250 milhões de habitantes e passou para 500 milhões, em 1500. Isso significa que a quantidade de pessoas sobre o planeta dobrou em 1500 anos.

Por volta do ano 1800, a população mundial atingiu um bilhão de pessoas, ou seja: a quantidade de pessoas sobre o planeta dobrou em cerca de 300 anos.

Mais ou menos em 1922, a população mundial atingiu dois bilhões de pessoas, ou seja: a quantidade de pessoas dobrou novamente em cerca de 120 anos.

O ímpeto de crescimento desordenado da humanidade não parou de crescer e a população mundial chegou a 4 bilhões de habitantes em 1975 (dobrou em apenas 53 anos). Nos 13 anos seguintes houve um acréscimo de mais 1 bilhão de habitantes e, em 1999 (11 anos depois) a população do mundo chegou a 6 bilhões. Seguindo esse ritmo a população mundial deve atingir 7 bilhões de habitantes em 2012, 8 bilhões em 2025 e deverá alcançar 9 bilhões em 2050.

O crescimento vertiginoso da população após o ano de 1800 D.C. ficou conhecido como “curva L” do crescimento populacional como pode ser observado no gráfico abaixo.














As estimativas de crescimento populacional para os próximos anos e décadas também apontam um futuro desordenado e caótico para todos nós.


Crescimento da população mundial
População       Ano       Tempo para o próximo bilhão (em anos)
1 bilhão           1802       126
2 bilhões          1928        33
3 bilhões          1961        13
4 bilhões          1974        13
5 bilhões          1987        12
6 bilhões          1999        11
7 bilhões*        2010        16
8 bilhões*        2026        24
9 bilhões*        2050        20
10 bilhões*      2070        26
11 bilhões*      2096        não calculado

(*estimativa)


As conseqüências negativas dessa massa populacional gigante no planeta consumindo água, matéria e alimento não são muito difíceis de serem compreendidas. Administrar um número maior de elementos é muito mais difícil do que administrar um número menor e controlado de pessoas.

Muitos economistas desdenham de Malthus gabando-se que os avanços tecnológicos suplantaram os problemas que teríamos com a obtenção de comida para essa grande quantidade de pessoas sobre o planeta. Só não percebem que isso foi obtido à um custo social e ambiental muito alto.

O planeta não suportará essa quantidade de pessoas por muito tempo e isso está mais o que demonstrado nos sinais que podemos perceber da natureza. Uma completa e profunda conscientização das pessoas e rigorosas ações políticas de todos os países devem ser tomadas para evitar que o pior aconteça.

Infelizmente, o ser humano tem sido imediatista e, questões mais demoradas e abrangentes que não se relacionam diretamente a ele e a sua época não são consideradas com responsabilidade.

Somente a mudança para uma sociedade de Decrescimento poderá garantir o futuro da raça humana e do planeta. Mudança essa que deve ser profunda e ampla. Uma mudança que passe por questões sociais, econômicas, culturais e também pela questão do tamanho da população mundial e o que chamamos de “pegada ecológica”.

Em nossa época e futuramente reduzir significará continuar existindo.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

(Dica de leitura) Livro: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno



Título: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno

Autor: Serge Latouche


Idioma: Português

Assunto: Economia

Ano: 2009

Tipo de capa: BROCHURA

Páginas: 192

Edição: 1

ISBN: 9788578272012

Editora: Martins Fontes


Senador Cristovam Buarque defende o Decrescimento em Brasília


Crescer menos em função da felicidade

Ao mesmo tempo em que são comemorados os resultados positivos da economia brasileira, surge um debate acerca dos limites do crescimento do Brasil. Ganham cada vez mais espaço as ideias de que é preciso muito mais que incrementar o PIB.

O senador Cristovam Buarque abriu o debate sobre o “decrescimento feliz”, em discurso, dia 25 de outubro, quando criticou a falta de debate sobre o crescimento econômico do Brasil. É a ideia de que é possível, “e até necessário”, crescer menos a economia em função da felicidade das pessoas.

“O problema do endividamento está no crescimento. O problema ambiental está no crescimento. O problema dos gastos públicos está no crescimento. Sem o crescimento, isso não ocorreria. Mas ninguém debate o crescimento”, avalia.

No pronunciamento, Buarque se apropria de questionamentos que estão sendo aprofundados na Europa, como reflexão da crise econômica que atinge alguns países. “Essa idéia que toma conta da Europa aos poucos, nos meios intelectuais, de decrescimento como objetivo, decrescimento com ampliação do bem-estar, decrescimento da produção, aumentando a satisfação das pessoas, aumentando a felicidade”, disse o senador na tribuna.

Conforme Buarque, é necessário contestar, ao menos em âmbito do debate, qual o crescimento o País precisa e não quanto ou como crescer. Para ele, a Europa é um exemplo a não ser seguido pelo Brasil. “Não esqueçamos que a Europa é o sonho da gente e é um sonho que não vale a pena repetir, porque é um sonho que está em chamas, neste momento, na Inglaterra, em Portugal, na França, na Grécia. E não é uma questão do capitalismo, porque a União Soviética também viveu até mais essa crise do que os países do Ocidente capitalista”, comentou.

O mestre em economia e pesquisador em desenvolvimento econômico, Eldair Melo, discorda do senador. Para ele, a Europa passa por uma crise de Welfare State (Estado do Bem-estar Social), o que ainda não existe no Brasil.

“Tal crise está proporcionando novamente a aquele continente uma nova oportunidade de desenvolvimento. As necessidades deles são outras. Eles querem garantir seu novo bem-estar social. No Brasil, as políticas criadas pelos governos, como o Bolsa Família, atuam como programas assistencialistas. Entenda que ainda hoje morrem pessoas nos corredores de hospitais públicos por falta de atendimento ou negligencia destes”, explica.

Não resolve o problema

O senador Buarque propõe, na verdade, uma mudança na mentalidade do crescimento e desenvolvimento. Para ele, somente reduzir as desigualdades não resolve o problema maior. “Não é a distribuição de renda que vai mudar o modelo, apenas vai distribuir esse modelo mais, e aí vai trazer outros problemas, como meio ambiente, como endividamento crescente”, critica. (Andreh Jonathas)

Bem-estar social

“Ainda não temos o Estado do bem-estar social. O ‘decrescimento feliz’ somente acontece com a existência disso. Primeiro, devemos desenvolver nossas necessidades e atingirmos um grau de desenvolvimento compatível” Eldair Melo, mestre em economia e pesquisador sobre desenvolvimento econômico

FONTE: Jornal "O Povo" online.

Gordura e Crescimento (Por Cristovam Buarque)

Durante séculos, acreditamos que as cidades ficavam melhores à medida que aumentavam. Faz pouco tempo, percebemos a necessidade de reduzir as cidades, para viver melhor fora das megalópoles. Já é possível ser mais feliz em cidades menores. Também durante séculos, acreditamos que as mulheres e os homens gordos eram mais saudáveis e mais ricos, carregando no corpo as provas da riqueza, as lembranças do prazer de comer e o fim da angústia da fome. Hoje, pelo contrário, o símbolo da riqueza e da beleza é a esbeltez. Nas sociedades modernas, são os pobres que engordam; os ricos gastam fortunas para emagrecer.
Gordura e superpopulação deixaram de ser sinais de riqueza inteligente, tanto para cidades quanto para pessoas. Mas as pessoas ainda resistem em perceber que a gordura que as rodeia, na forma de bens, consumidos ou de patrimônio, não é mais sinal de riqueza inteligente.
Porque essa riqueza já não cabe no mundo. As cidades vivem com suas aortas entupidas de automóveis, a atmosfera envenenada por dióxido de carbono. O organismo social padece das doenças que convenceram as pessoas a reduzirem suas cinturas. Também porque a segunda lei da termodinâmica deixa claro que nada pode crescer infinitamente em um mundo finito, com recursos naturais esgotáveis.
Depois de dois séculos de civilização industrial, principalmente na segunda metade do século XX, e muito mais com a globalização das últimas décadas, o PIB se transformou no símbolo do avanço civilizatório. Não importa se a compra vai endividar, comprometer o consumo de coisas mais essenciais à família, tirar as crianças de uma boa escola.
Não importa também se as horas perdidas no trânsito aumentam, ou se os engarrafamentos consomem tempo de vida ou provocam angústias e perdas. Como o consumo de combustível eleva o PIB, o engarrafamento passa a impressão de que a sociedade está mais rica, apesar da diminuição da felicidade geral.
Na medida em que percebemos o "desvalor" dos bens que engordam as cidades e as casas, tomamos consciência da possibilidade e da conveniência de aumentar o bem-estar graças ao decrescimento da produção de bens materiais e privados, com aumento na oferta de bens e serviços públicos e culturais. Diante da crise ecológica previsível e das insatisfações sociais já sentidas, surgiu, especialmente na Europa, um movimento pelo "decrescimento-feliz".
O conceito de decrescimento, atualmente debatido na Europa, substitui a ideia do crescimento ilimitado pela meta de uma sociedade melhor, que consume menos. É claro que esse decrescimento não se aplica linearmente em um mundo onde 20% consomem 85% dos recursos naturais. Em consequência, 80% da população vivem com menos do que o necessário.
Em 1980, a Editora Paz e Terra publicou um livro com o título "Desordem do progresso — O fim da era dos economistas", logo traduzido em Londres com o título "The End of Economics".
Há poucas semanas, o jornalista Clóvis Rossi publicou um artigo com o título "Felicidade Nacional Bruta", em que comenta o movimento mundial em busca de um novo indicador para o progresso. O IDH — Índice de Desenvolvimento Humano — já é levado a sério. O governo francês pediu e já recebeu uma proposta, elaborada por economistas, visando a um indicador que substitua o PIB.
É inevitável que a ideia de decrescimento-feliz ganhe adeptos. Que se espalhe e seja aceita tanto quanto a ideia de crescimento dominou o século XX. Antes disso, poderá ser recusada e ridicularizada, assim como a industrialização enfrentou fortes resistências do mercantilismo e da fisiocracia.
Mas prevaleceu, porque representava a força do progresso. O decrescimento-feliz vai prevalecer graças à fragilidade da atual concepção de progresso para enfrentar a força da natureza e as insatisfações existenciais. Não deve demorar muito para que o crescimento econômico passe a ser visto com o desconforto que hoje recai sobre a gordura do corpo e o tamanho das cidades.

Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um câncer chamado humanidade

Eu queria falar agora sobre dois conceitos aparentemente desconexos, mas que tem muita relação: câncer e pegada ecológica.
Você sabe qual é a definição genérica de câncer ? Segundo os médicos, câncer é o nome dado a um conjunto de doenças que tem em comum o crescimento desordenado (e maligno) de células que invadem tecidos e órgãos e podem espalhar-se para outros órgãos.
Outro conceito recentemente criado e difundido pelos meios de comunicação e por ecologistas é o de "pegada ecológica". Este termo refere-se a quantidade física de terra e água necessária para sustentar economicamente uma determinada sociedade, foco desta medição. Assim, para medir a pegada ecológica do Brasil, por exemplo, calcula-se a área de energia fóssil que seria necessária para absorver o gás carbônico liberado em excesso na atmosfera pelas atividades industriais; a terra arável necessária para a produção agrícola das necessidades alimentícias da população; as pastagens necessárias para a criação de gado em condições minimamente razoáveis; as florestas necessárias para o fornecimento de madeira e seus derivados não lenhosos; e a área urbanizada necessária para a construção de residências e edifícios.
Segundo estudos do WWF e da instituição "Global Footprint Network" a pegada ecológica da humanidade vem aumentando nos últimos séculos apontando para uma necessidade urgente de mudanças de hábitos e mentalidade.
Assim como um câncer a pegada ecológica da humanidade vem aumentando "desordenadamente e de forma maligna".
Aliado à isso tudo, a mídia vem divulgando esforços da NASA e de consórcios espaciais internacionais para a colonização de outros planetas no sistema solar como Marte e Vênus, sendo que a ocupação da lua é algo absolutamente possível e realizável que só não foi feita até hoje por questões econômicas. Isso sem falar das já existentes estações espaciais que nada mais são do que colônias suspensas no espaço que ainda não estão em "terra" firme.
Escrevi isso tudo para traçar um singelo paralelo.
O crescimento desordenado da humanidade (pegada ecológica) é evidentemente maligno levando-se em conta os danos causados ao planeta e a própria sociedade (tecidos e órgãos) e que agora, graças aos "avanços" científicos (???), podem espalhar-se para outros planetas (órgãos), uma vez que o planeta terra está totalmente tomado, assim como um câncer.
Certa vez, assistindo um filme de ficção científica, vi pela primeira vez um dos personagens (ele era um extraterrestre) dizendo que a humanidade era um câncer e que a destruição do planeta terra seria um grande benefício aos outros planetas habitados da galáxia.
Na época eu não dei muita importância a essa associação de idéias.
Hoje eu a acho extremamente realista e atual.

O que é decrescimento?

O conceito de decrescimento econômico não é novo. Além de todas as crises econômicas, políticas e sociais vividas pela sociedade capitalista moderna, desde a década de 70 fala-se em uma alternativa racional e sustentável para o ocidente civilizado.
Nicholas Georgescu-Roegen, economista romeno, escreveu um livro chamado: "The entropy law and the economic process" onde desenvolve as alternativas ao crescimento econômico lançando as bases do decrescimento como alternativa viável ao progresso erroneamente idealizado por uma política corrupta e insana, distanciada do Homem.
O decrescimento baseia-se no fato de que o crescimento econômico infinito, amplamente perseguido pelas nações capitalistas, é impossível pela simples imposição física que o planeta terra é finito e, consequentemente, todos os recursos nele existentes também o são.
Além destes conceitos, abordaremos a explosão demográfica, a qualidade e o tamanho das empresas, o engodo da sustentabilidade e os novos conceitos da "Economia Espiritual".